Eu queria mesmo é uma borracha! Ou mesmo um relógio pra voltar no tempo…
Não… queria mesmo a borracha pra apagar aquilo que não devia permanecer nem no passado, porque o passado nunca é algo morto e enterrado como o dizem. O passado é sempre remoído, o passado vem sempre assombrar. O passado é um fantasma obstinado.
Mas a verdade verdadeira é que a gente é muito idiota e hipócrita e infantil, porque não sabe lidar com erros, porque a gente nunca sabe parar de errar, e gente não sabe consertar as coisas… Por isso fica lamentando os fantasmas. Não… a gente não é idiota. Eu sou idiota… viu? Até me falta coragem pra proclamar: eu errei!
Eu aprendo com meus erros, contudo não deixo de errar. E aí? Como fica? Como cessar esse ciclo?
Quando vejo que não tem saída, corro para abraçar o cobertor, tal qual faz uma criancinha, e fico desejando a tal borracha.
Apagar-me, diluir-me, desmanchar-me
De Paulo Leminski
No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto
a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo
extinto por lei todo o remorso,
maldito seja que olhas pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais
mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.
Quarto escuro
Estranho é ter medo de escuro
quando a solidão não assusta,
porque a escuridão é ausência.
Vazio-
Temor este que se faz sentir.
Sente-se a incerteza,
a impevisibilidade de
uma luz qualquer
se ascender e
mostrar coisas
inesperadas,
jamais vistas.
Soneto de Maresia
Oh braços, alvos cisnes lânguidos,
Sois ressaca em ombros lúgubres;
Espuma dos mares cândidos.
Tendes malícia entorpecente
E a ingenuidade cálida.
Ai, nas noites de lua pálida
Sois brilho do nácar latente.
Vosso talhe tem a leveza
Da areia audaciosa do cais.
Oh braços- ondas de pureza.
Prelúdio do meu arrebol.
Sois lindas gaivotas faceiras
A revoar sobre o farol.
Para não dizer que não falei das flores
Nossa índole mesquinha e egoísta nos faz sempre protagonistas. É certo que cada um estrela no papel principal em sua própria vida, e isso não é condenável, pois a visão romântica de viver em função de um amor platônico nos priva de nós mesmos. Mas o ego é tão assíduo que, até quando andamos pela rua ele se impõe- caminhamos pensando em nós, nos nossos compromissos, em nossos desejos, problemas, reminiscências. E tudo- calçada, plantas, pássaros e até mesmo pessoas são cenário da nossa caminhada egocêntrica. Estão sempre ao fundo e, se cruzam conosco, isto nos passa indiferente.
Não sou hipócrita a ponto de me excluir da indiferença em relação a outrem. Sou muito animal, tal qual os humanos que desprezam a socialização desinteressada, de quebra de gelo no ponto de ônibus. Entretanto houve um momento em que o holofote foi desviado despretensiosamente em direção ao cenário. E então eu enxerguei o outro como protagonista, surpreendentemente de uma história incomum na paisagem urbanamente caótica- de camarote, fora da minha atuação, na condição de cenário despercebido e atento, vi um gari cuidar com um esmero indizível de um jardim. Seu sorriso era o sol, e quem o percebesse teria um dia mais límpido e descomplicado. Não obstante, o gari sempre esteve ali, cuidando das flores. O que despertou meu olhar, entretanto, foi algo além das flores e, que vil dizer, além do gari. O que me fez enxergar foi o desnudamento do gari- por trás de uma função estava um homem com anseios e entraves peculiarmente humanos, estava um homem que amava.
Tudo parou. Só havia o gari regando as flores e uma mulher em seu gingado apaixonado, navegando em direção ao seu porto seguro. A mulher chegou. O regador foi posto no chão. O gari se levantou. Um abrço. Forte. Um beijo. Apaixonado. Infinitos nos limites do momento. O sinal se abriu. As cortinas fecharam.
No outro dia, porém, a mesma cena em replay, e, a cada dia, em uma harmonia exponencialmente crescente. Uma bela coincidência foi quando, de dentro do meu carro, Chico se incumbiu da trilha sonora: “Todo dia ela faz tudo sempre igual, me sacode às 6 horas da manhã, me sorri um sorriso pontual e me beija com a boca de hortelã”.
Certo dia, no entanto, não vi o gari sorrir. Cuidava das plantas ainda com zelo, como se essas fossem seu coração, como se elas estivessem estioladas. Ninguém veio até o gari nesse dia. A mulher que passa não passou. Foi um dia sem abraço de conforto e sem beijo ansioso.
Os dias seguiram solitários para o gari amigo das flores. Seguiram vazios para mim, como para um teatro sem atrações. Seguiram indiferentes para os que passavam sempre por ali sem notar o homem que costumava sorrir para o jardim.
Em uma ocasião, o gari passou por mim na rua. Cruzei com ele como se cruza com qualquer pessoa. Mas o reconheci porque o conhecia- assisti cenas de sua história. Todavia ele passou por mim indiferente e sozinho, como muitas pessoas que andavam nos arredores. Ele não sabia quem eu era. Ele protagonizava ainda sua história e eu me colocara no lugar de espectadora quando ele passou. Mas as cortinas tiraram-no de cena quando um velho rabugento, incomodado com minha inércia cega, despertou-me: “olha por onde anda, menina!” Orientei meu passo, esqueci o gari e voltei-me ao meu papel.
A menina que roubava livros
Sou suspeita em falar que livros significam muito. Eu amo livros e não é de hoje. Cada um com seu infinito de arrancar sempre novas impressões a cada leitura; cada um com o seu universo.
Já ouvi dizer que quem empresta livros é idiota e que ainda mais idiota é quem devolve livros emprestados. Não concordo, claro. A leitura não deve ser mantida sob monopólio. Ela tem mais que ser compartilhada. Mas… pra mim, um livro é um objeto de fácil apego, não material, mas sentimental. Ainda mais um livro de duas histórias, porque um livro que traz duas histórias- a história que o entitula e a história de como ele veio parar em nossas mãos, isto é, a história da dedicatória, a gente tem que abraçar com força e levar sempre em baixo do braço. E quando vier a saudade, a angústia, a solidão, a gente tem algo intimamente nosso, algo análogo a uma ‘naninha’.
Carrego pessoas dentro de livros… Mesmo que elas tenham ido embora, mesmo que elas estejam longe. Tenho, por exemplo, alguém especial (que me ensinou tanto) em Fortaleza Digital (ainda que a dedicatória não esteja escrita), alguém raro e cordial nas poesias da Florbela, alguém, diga-se de passagem um ótimo amigo pra conversas, no Cancioneiro de Álvaro de Campos. E agora tenho um novo livro. Um livro de alguém que abriu mão dele para que eu pudesse tê-lo. Um livro de parar relógios. Um livro de não deixar o tempo levar os sonhos de um poeta e uma revolucionária.
I’ve been learning



