I’ve been learning
Não há vivos- há os que morreram e os que esperam a sua vez
Aos meus amigos de solidão
invocação dos ídolos
Fernando, meu caro Pessoa. Singular por ser múltiplo. Antropomorfo cubista. Amigo querido que traz em Seus Vários Eus pedaços de mim. Suas palavras são “Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra”, isto é, confusões tão iguais a mim. Consolos na desolação. Compreensão do incompreensível. Idealismos compartilhados:
Eu e Ricardo Reis, idealistas da paz, serenidade, tranquilidade, sabemos da morte certa, mas fazemos de cada dia o nosso ‘carpe diem’? Nossa razão abre margem para vivermos ainda que o efêmero? Para a espontaneidade? Deixemos de conveniências- pegue esta taça, deite o vinho. Brindemos. Olvidemos a vida para a plenitude de qualquer depois.
Caeiro, oh, invejável Caeiro. Começa por seu nome o que és: ilustre, brilhante. Atingiste o ideal dos homens- o de viver sem dor, sem pesar, sem angústia; de sentir irracionalmente, sentir plenamente. És fragmento unificado. Contemplas tudo como se tudo fosse inerentemente perfeito. Não buscas sentido. Sentes e isso é tudo. Tolo, ingênuo, dirá Álvaro de Campos, mas ele mesmo o inveja. Queria eu ser Guardadora de Rebanhos e arrebanhar meus pensamentos… Mas os meus pensamentos não “ são todos sensações“.
Álvaro, para onde estamos indo? Essa sede de sentir e não saber o que se sente está me cansando! Na impossibilidade de plenitude, só resta o tédio e o ópio, que nos deixam cada vez mais vazios, ainda mais cansados, ainda mais niilistas. Vês? Ainda há dois cigarros por acabar no cinzeiro. Tome o seu e, bem, sente-se. Não tenhas a pressa das máquinas, nem ames a modernidade, pois essa tem seu rítmo alucinante porém monótono, ainda mais frustrante que nossa imobilidade.
Rachel, “a verdade verdadeira que eu falar não posso, aquilo que representa o real desejo do meu coração, seria abrir os braços para o mundo, olhar para ele bem de frente e lhe dizer na cara: Te dana!”. Mas é vil esse obstinado coração! “O miserável coração nasceu cativo e só no cativeiro pode viver”. Resta-nos viver subordinadas ao coração- cuidemos, então, do mundo, da pátria, do amado, da parentela, e “jamais se dedicar a si própria e aos seus desejos secretos”. “Te dana, coração, te dana”
Cash, não temas a solidão, meu homem solitário. Há anfetaminas. Entretanto elas são também efêmeras e vão embora no final. O que nos tornamos, meu doce amigo? Chegará o dia em que “isso não dói mais/ todas as lágrimas se secaram’? O tempo é o porteiro e nos abrirá a porta para dizermos: “E finalmente estou livre, não dói mais”?

Cecília, achaste o espelho em que ficou perdida sua face? Eu não… meu rosto ainda está “assim calmo, assim triste, assim magro”, e meus olhos tão vazios e os lábios tão amargos. Venha, então, cantar comigo, porque um dia sei que estaremos mudas; cantemos porque o momento existe.
Frank Sinatra, obrigada pelas danças gentis que me levam até a Lua através de uma nostalgia sem precedentes. Segure forte em minha cintura, guie meus pés no rítmo da sua voz de conto de fadas. Ao final da dança você beijará minha mão e eu direi-lhe: Foi um prazer, meu caro.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.” Diz-me o ponto certo da Receita de Ano Novo, ela é simples mas a gente complica demais. Vem comigo e traz suas palavras, eu estarei com um livro em branco para escrevermos diante das ondas, acomodados naquele banco perto da praia.
Sou a que chora sem saber porquê…”
Ao meu leitor assíduo,
Obrigada!
Obrigada pela presença, compreensão, pelas tantas vezes que você soube, sem eu precisar dizer, que eu não estava bem e, diante disso, tentar me animar de alguma forma.
Você faz a diferença (:
O que os anos já não trazem mais- aquelas tardes fagueiras, a sombra das laranjeiras, debaixo dos laranjais
Com aquelas perninhas gordas e jeitinho desajeitado de criança graciosa, ela subia aquelas pedras grandes que formavam dois degraus. No patamar elevado do paiol, que perdurava por gerações, ela lançava mão sobre um punhado de grãos de milho que vazavam-lhe das mãos. Arremessava, então, os grãos abaixo e imitava o som das galinhas, a fim de convidá-las para a refeição, tal como a ensinara seu avô.
Quando este aparecia- chapeu de palha, mãos para trás, jeito humilde e olhar sorridente, as perninhas rechonchudas punham-se a descer os degraus e correr em direção ao bom homem e abraçava-lhe as pernas, posto que ela era figurinha diminuta. Juntos então, il vecchio e il bambina, seguiam a caminho do vale. Na beira do riacho ele tirava um pedaço de pão velho da sacolinha e fazia pequenas bolinhas para que ela as lançasse aos peixes. Passavam horas ali até que sentiam o cheiro de café que os faziam regressar. Sentados à mesa, mostrava-lhe as bolinhas feitas com o miolo de pão novo e dizia “eu como comida de peixe, vô”. E o avô sorria-se todo e fazia-lhe cócegas.
As tardes assim se anoitavam: ao som de risos, ao cheiro de café.
Vieram primaveras, verões, outonos e invernos. Algumas àrvores perduraram- as que estavam bem arraigadas, outras secaram. Algumas tiveram de ser cortadas por não caberem mais no cercado que delimitava a casa, como aconteceu com a mangueira. Que perda foi aquela árvore. Oh, sombra frondosa, que acalentava sonecas na rede… Tudo se foi… e foi tão rápido que a garotinha cresceu tanto que agora se curva para abraçar o velho que antes era meia perna e tronco mais alto que ela. Cresceu também o amor que tinha pelo avô, amor desde cedo arraigado, desde cedo adubado. Desde cedo como a Mangueira- quase tão grande que nem cabe no coração.
O acaso vai me proteger
Já faz tempo, mas parece tão perto do agora. Era final do ano de 2004. Último ano naquela escola- 4ª série, encerramento do ciclo I do ensino fundamental. Guardo muitas coisas, muitos sabores, muitos rostos e muitas lições dessa época. Lembro-me da Dona Natália, bibliotecária ruiva e já senhora, que me chamava de xará. Tinha uma voz aguda e rouca. Lembro-me bem de sua voz e da expressão de quando me olhava por cima dos óculos.
Lembro-me, também, da bala Lua Cheia e do salgado de presunto e catupiry que às vezes comprava na cantina da Dona Rosana. Lembro-me da Vandinha (e da vez em que ela disse que as fezes das galinhas podiam ser aproveitadas, quando eu perguntei quais as três “partes” da galinha podiam ser aproveitadas. A resposta certa era: penas, carne e ovos…). Lembro-me do Seu Pedro. Lembro-me de um tênis breguíssimo que eu usava- era branco e parecia uma pantufa… Lembro-me do dia em que vomitei. Lembro-me das panelinhas de meninas tolas e dos piqueniques que fazíamos no recreio. Lembro-me da Dona Rosa- autoritária de voz masculinamente grave e de alta estatura, lembro-me da diretora, e, ai, como era mesmo seu nome?
Lembro-me do banheiro- azulejos cinzas, pia baixa, espelho retangular e comprido, e das evocações da loira do banheiro.
Mas as memórias mais latentes que tenho é do final de 2004. Já era por aqueles dias em que poucas pessoas continuam indo pra escola. Dona Ruth, figura singular, magricela, meio hippie e excêntrica, era minha professora. Foi com ela que aprendi as temíveis frações, a ter gosto pela poesia e arte. Muitos pais a criticavam por ela pedir muitos trabalhos e incentivar apresentações teatrais. Mas foi, ao contrário do que os pais pensavam, um ano de grande aprendizagem.
Em uma dessas aulas, levaram um CD do Titãs. Não conhecia as músicas, entretanto. Dona Ruth colocou no rádio a canção Epitáfio e propôs que a interpretássemos. Eu não sabia o que era epitáfio, mas a música me soou perfeita e eu entendi que a letra era de arrependimento. Isso foi dito na discussão que fizemos, e então Dona Ruth pediu que procurássemos no dicionário o significado de epitáfio. Lembro-me perfeitamente da definição- escrita tumular. Então veio aquele momento de consciência- tudo e fez límpido na minha mente. O “devia ter amado mais, ter chorado mais, ter visto o sol se pôr” está no passado porque o tempo já se foi para o eu-lírico e o tempo é implacável.
Gosto de muitas letras de músicas, mas essa é, em minha opinião, a melhor composição. Talvez por me trazer lembranças da época com Dona Ruth e do fascínio que senti quando entendi o sentido do título ‘epitáfio’. Ou então, gosto pelo mote da música, o arrependimento, ser um um fado comum dos tempos modernos- eu me pego constantemente atrelada aos afazeres coercitivos e esqueço-me de ver o sol se pôr.
O pôr do sol é como a vida- belo e efêmero. Porém o sol volta pela manhã, e a vida, quando se põe, não abre margem pro arrependimento. Este fica no epitáfio derradeiro.
Sono
É preciso ser forte para acordar.
A luta começa entre você e suas pálpebras,
estende-se entre você e o bocejo,
entre o “ter que levantar” e
sua vontade.
Se as pálpebras vencem, você acaba por
acordar atônito, xingando, apressado.
Se o bocejo vence, ele traga
as forças que você juntou
para sair da cama, e nela você
permanece inerte, mórbido e
sonhador.
As consequências?
Acordar atônito, xingando,
vestindo a calça com uma mão e
escovando os dentes com a outra.
Seus sonhos esmaeceram.
Sua vontade de vencer
nunca será suprida
plenamente, pois, hora ou outra,
você vai despertar atônito,
xingando, tragando um gole de café e,
simultaneamente calçando os sapatos.
Resquícios
O sol já iluminava aquele quarto que pouco a pouco escureceu e ficou tão vazio. Os raios da manhã envolviam os braços nus. A sensação foi como a de quando ele a abraçava.
Ela apertou os olhos e levantou-se. Abraçou a si mesma para se confortar ainda que na ausência.
No espelho viu as sombras das noites que custavam passar. Notou a ausência do sorriso, mas lembrou que ele o havia levado consigo.
Abriu a gaveta e retirou as palavras, aquelas palavras dele, intrínsecas no papel. Cada letra falava com aquela voz grave que a deixava arrepiada só pelo prazer do som. Respirou enfim e fechou os olhos num piscar infinito.
Resolveu pagar contas para se distrair. Em vão. Os resquícios dele eram ainda latentes- por entre as notas estava seu rosto. Ela pensou que fotos eram suficientemente constantes. Desejou, então, ser foto. Sorridente, foto feliz. Expressar e não sentir.
Entrou no carro e pensou alto. Ponderou ser melhor cantar a falar sozinha. Ligou o rádio e a música era aquela mesma da qual ele tirou frases para sussurar em seus ouvidos.
A música fluía em seu rítmo perfeitamente cruel. Sentia-se torturada com a presença dele em recortes. Sentia-se como alguém no deserto que almeja oásias mas só avista miragens.
Obsoleto
Intriga-me essa nostalgia de uma época que nem foi minha,
de rostos que nem conheço,
de sabores jamais experimentados.
Intriga-me a amplitude do mundo, o alcance das ideias.
Intriga-me a relação de tempo-espaço,
que me faz deslocada do contexto,
do contemporâneo, da atualidade.










