Lauda sem verso

Eu era ali pra ele uma página em branco. Assim como ele o era pra mim. Por isso a excitação. Sendo ainda desconhecida, eu podia me inventar. Podia dizer sem me contradizer, porque não dissera nada antes. Podia mudar minhas opiniões, pois que, pra ele, minhas opiniões ancestrais não eram conhecidas. Eu podia expor ali uma das tantas facetas da minha personalidade, de acordo com a minha vontade, porque eu não tinha o compromisso de saber qual faceta ele mais gostaria em mim.

É fácil e absurdamente instigante ser-ter uma página em branco. É um começo. Novo. Não tem nada de recomeço e, portanto, nenhuma bagagem, o que torna o novo leve. Quando se é-tem uma página preenchida, se está sujeito a insatisfações. A página está cheia e, por vezes, não se sente disposto a preencher aquele pedacinho entre as espirais que ainda está vazio, aquele espacinho que se desconhece da pessoa; não se atenta ao que falta e dá-se a página por esgotada. Só se pensa em acabar o parágrafo com um ponto final.

Uma página cheia pode nos cansar, porque às vezes a gente quer mudar a caligrafia, mas tem medo de estragar a página. Além disso, sempre há algo na página que a gente quer apagar, mas eu garanto, não adianta. Essas páginas, quando não escritas à tinta inexorável da caneta, são grafadas a grafite 2B, de forma que a borracha esfolia o traço, mas não leva o sulco do papel. E a marca sempre permanece, rasurando a lauda. Daí a necessidade de virar a página. Colocar no cabeçalho uma nova data para alimentar a ilusão de que os tempos mudaram. A necessidade de preencher a nova página de forma diferente. A necessidade de ser diferente para que a página de alguém se preencha com aquilo que você almeja que enxerguem em você.

Retomo ao encontro de páginas. Às interfaces novas: e assim estou eu com uma página em branco agora. Vou preenchendo-a com minhas impressões e constatações; com versões daquele se desnuda e se esconde. Preencho a página em itálico e com letras cursivas, pois que já me cansei das letras de forma que se deformam já nas primeiras linhas. E escrever cartesianamente demora muito. As arestas pinicam as margens. Em letra cursiva inclinada, a página vai ficando elegante e cheia de curvinhas. Em letra apressada, a página vai se enchendo bem rápido. E eu sei que a página em branco já não está mais tão em branco quando como comecei essa crônica. As letras em itálico mostram minha sede por esgotar as páginas em branco pra ver até onde vai esse caderno e pra ver se, no final das folhas, quando a costura de um livro que perdeu as espirais dificultar a escrita, pois quer já fechar o livro, eu desisto da escrita ou se, retomo o caderno reciclando as folhas.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s