Meus avôs morreram num domingo

Meus avôs morreram num domingo. Como se suas existências simples não quisessem se complicar na morte. Como se para não atrapalhar as rotinas das pessoas tão atarefadas, sem muita disposição para as conveniências fúnebres. Ela, a Morte respeitou o dia de descanso, o dia que Deus deu a nós por misericórdia, para realizar seu trabalho – levou-os no dia em que a família se reunia, uma predisposição ao velório. Há quem diga que família só se reencontra em casamento e em velório. Mas a minha família se reúne aos domingos.

Meus dois avôs tinham relações distintas com a Morte, disso tenho certeza. Um sentira seu bafo quente já de pequeno. Sua saúde oscilante foi cercada de promessas. Levaram sua foto, um garoto franzino e assustado, em alguma capela importante. Seu nome peregrinou em várias novenas e missas. Ainda jovem adulto, teve seu primeiro infarto. Foi levado à capital e deixou parte da família aflita. As notícias esparsas que chegavam dizia que seu quadro era grave. As filhas, ainda moças, choravam como órfãs. Mas, antes mesmo da esperança, o pai retornou. Voltou pra casa, contudo sempre olhando de esguelha pra ver se a Morte não se escondia em sua própria sombra. Às vésperas do casamento da filha mais nova, deu de adoecer de novo e não pode comparecer ao casório, uma falta que ainda ecoa na filha.

Havia essas intermitências em sua saúde. Era sempre grave. Todos se antecipavam no luto, mas ele era as cinzas que, sopradas, incandesciam novamente. Entretanto, surpreendeu-se ao conhecer suas netas e neto. Todos. Quatro. E a mais velha fizera 5, 10, 15, 20… 23 anos! Quem diria…

Em todos esses encontros com a Morte, não sei o que ela e meu avô negociaram. Meu avô só sabia negociar galo de briga. Não creio ter havido pactos com a Velhaca. Talvez fosse ela que hesitasse: era covardia chegar ao mundo dos mortos com uma alma tão leve nos braços.

De qualquer forma, esse meu avô nunca fugira da Nefasta. Mas não posso afirmar que ele não tivesse medo dela.

O outro avô sempre fora mais forte de saúde. E sua estatura também fazia qualquer um duvidar de suas fraquezas. Essas eram ocultas. Fraquezas no caráter. Tinha, vez ou outra, suas moléstias físicas, mas essas não eram tão funestas a ponto de evocar a Temida. Acho que esse avô, no fundo, por não ter ainda tanta intimidade com a Morte (a morte era sempre a dos outros), tinha um baita medo dela. E, por isso, mesmo com um pequeno resfriado, ele expunha sua doença mas reiterava que ia ficar bem, numa tentativa de arregar a Morte, se ela estivesse rondando, com sua convicção bem viva.

Morreu assim, de repente. Um mal-estar banal, um desconforto intestinal e, puf. Mortinho. Sofremos muito. Sofremos o desaviso da morte. Ela veio sorrateira. Ele sim tinha sombra grande o suficiente pra esconder a Implacável. O dia nascera lúgubre. Um domingo nem quente nem frio. De cores cinzas e amareladas. Um céu nem sol nem chuva. E um silêncio dominical de uma cidade pequena do interior. Era o dia de glória da única funerária de lá.

O outro avô, que estava certo de morrer precocemente, viu o sogro da filha rendido à Imperatriz. Viu as pessoas chorando num velório que não era o dele. Por fim, colecionou muitos mortos durante a vida, e talvez fosse contando seus mortos é que ele contasse seus anos. Sua vida sempre por um triz.

O dia, enfim, de sua morte oficial, chegara como o dia de um casamento. Havia dias que ele estava estirado na cama do hospital, com as mãozinhas repousadas sobre o ventre, ensaiando para o funeral. Ele esperava a Noiva.

Foram dias infinitos. Diversos procedimentos médicos. Diversas medicações. Era pressão que caia, pressão que subia. O coração desenhava gráficos bizarros no frequencímetro, como se para fazer auê. A Morte, em relação a esse avô, era vaidosa, queria ser percebida. Fazia alarde.

Durante esses dias, seus órgãos foram parando. Um por um. E aí vinham as próteses, os aparelhos- para respirar, para evacuar, para pulsar… Só o cérebro ficou lá, nos trinques. E talvez isso seja o que dói mais. Ter consciência da Morte te levando as partes, aos poucos. Estar de olhinhos bem abertos pra ver a cara que ela tem.

O luto da família, iniciado tantos anos antes, agonizava nesse vem-não-vem da Morte. E, no fim, todos sabiam que o melhor era aceitar que ele partisse, mas ninguém estava certo de se sentir preparado pra isso.

Contudo, num domingo nublado, nas horas preguiçosas logo depois do meio dia, quando meu avô costumava esperar seu golinho de café,  ela se decidiu e o levou para o altar.

Mesmo depois de tanto luto, havia ainda muita chuva em nossos olhos. E nos invadia aquela questão: “será que ele viveu bem, mesmo vivendo sempre pertinho da morte?”. A espera crônica pela morte é vida? E a vida é sempre isso, afinal- a espera da Morte, ainda que às vezes não pensamos nela?

Não sei, não sei. Mas fato é que a gente só se da conta da vida quando a morte está por perto. Os olhos humanos precisam de certos contrastes.

E, falando em olhos, eu realmente acho que os meus avôs viram a Morte de perspectivas diferentes. Um com susto, o outro com resignação. Talvez. Mas acho que ambos tiveram medo. “Pra onde ela vai me levar?”, eles devem ter se perguntado. E, nessas horas, a gente deve duvidar da própria fé, até os ateus, que, por fim, acabam por desejar a existência de um deus. Ainda se a Morte vier com voz sedutora, com carícias afáveis… Ela vai, certamente, causar um calafrio, como essas mulheres atraentes e seguras de si mesmo. Eles sentiram medo. Eu não tenho dúvidas. Mas impossível dizer qual dos medos foi maior- o de ser beijado pela primeira vez por Ela ou o de reencontrar a Velha-Conhecida.