Um sopro

Hesitei por alguns instantes- deveria descer do carro também?

Já era tarde, mas estávamos voltando cedo de um casamento. Ela odiava casamentos, ainda mais da minha família que, segundo ela, se preocupava demais com status e com as aparências. Certamente que viemos brigando no caminho.

– Você é uma grande ditadora!

– Eu? Por que quis vir dirigindo seu carro, já que você bebeu demais?

– Eu estou sóbrio! Nem bebi tanto assim, afinal, só deu tempo de chegarmos à festa e sentarmos à mesa! Você é uma mandona! Quer tudo do seu jeito, diz aonde devemos ir, quanto tempo devemos ficar… Assim não dá, Cecília!

– Você queria o quê? Que eu ficasse mais naquela mesa onde eu estava sendo apedrejada com os insultos das suas tias, com indiretas das suas irmãs e com as críticas da sua mãe? Sua família não vai com minha cara, me trata com hostilidade e eu que sou ruim por não querer ficar lá?

– Até que ponto você quer mesmo estar comigo? Você não engole nada! Não faz nada por mim! Como posso ficar com uma mulher que odeia minha família?!

– Epa, epa. É sua família que me odeia! E, quer saber? Eu tô com você porque gosto de você, mas, se quiser, vai achar outra, uma que ame sua família acima de tudo!

– Mas… A… Eu não pedi pra você AMAAAR… E… Ah, deixa quieto.

E, desde então, íamos pela estrada ouvindo o som do silêncio que nos faz remoer cada chateação, cada atitude e impertinência do outro que, apesar de amarmos, irrita-nos com tamanho ardil, que somos capazes de odiá-lo visceralmente. Nem me atrevia a olhar para Cecília com medo de sentir vontade de estrangulá-la. Xingava-a mentalmente e, provavelmente ela fazia o mesmo até olhar pelo retrovisor.

Cecília, de repente, olhou pelo retrovisor e, sem explicações, deu ré com o carro, como se deixara algo cair e ficar pra trás.

– Mas que diabos isso agora?

– Tem alguma coisa na pista.

Olhei pra trás e, sem muita distinção, vi algo quase na margem da estrada.

– Ah, por favor Cecília, deve ser algum animal morto! E nem tá atrapalhando a passagem, aliás, só tem a gente na estrada.

Sem responder e sem desligar o carro, ela tirou o cinto e saiu sem fechar a porta. Minha indecisão sobre sair do carro ou não foi tão breve que nem olhei pra trás para ver o que Cecília fazia. Eu já estava fora do carro também.

Encontrei-a ajoelhada na beira da pista, prostrada diante de um animalzinho morto.

– Um gato morto?

Com cuidado ela mexeu no animal, que, vacilante, deu uma gemida quase inaudível.

– Um gato vivo! Disse em um tom que misturava ternura e gravidade.

O bichano estava com um ferimento fresco que me enojava. Suas patas traseiras estavam molengas, provavelmente estavam deslocadas. Sem chances de sobrevivência aquele molambo.

– Vivo? O bichinho tá agonizando.

– Mas ainda assim vivo!

Levantou-se com o gato nos braços, abriu a porta traseira do carro, arrancou da caixa seu par de sapatos de salto que usara durante a festa e acomodou com muito cuidado o felino-cadáver. Com a caixa em seu colo, usou o primeiros socorros do carro para limpar e estancar os ferimentos do gato. Aquilo me era muito ingênuo. Cecília parecia uma criança tola tentando, debalde, curar o bichinho. Lembrei-me de quando ela me dissera que, quando criança, queria ser veterinária. Mas, não, não era um desejo reprimido que, na ocasião do gato, aflorava-se em Cecília, afinal, toda criança quer ser veterinária. Cheguei a pensar que todo o excesso de cuidados com o gatinho, que já nem tinha perspectiva de sobreviver, era mais uma forma de me deixar irritado. Acreditei fortemente nisso quando, ao terminar os curativos, acomodou a caixa com o gato no banco, fechou a porta traseira e tornou à direção. Eu, que assistira Cecília tirar onda de enfermeira do banco da frente, perguntei incrédulo (ou forçando o tom de incredulidade, já que de Cecília tudo podia esperar):

– Você vai levar o gato pra casa?

– Não se preocupe, eu vou dormir na minha casa hoje. Te deixo na sua casa, pego meu carro e você não vai ser incomodado nem por mim nem pelo gato.

Nem ousei fazer qualquer pronunciamento.

Não estávamos longe de casa e, de quando em quando, Cecília virava-se para olhar o felino que cada vez respirava com mais dificuldade.

Logo que chegamos, ela colocou o carro na garagem, acendeu a luz e, precipitadamente, ajoelhou-se no chão com a caixa no colo para se certificar de como o gato estava. A face de Cecília trazia um olhar profundo, talvez efeito da maquiagem, e nenhuma ruga de expressão, como se cada músculo de seu rosto estivesse relaxado. Apesar disso, via-se nos olhos dela que muita coisa se passava na mente. Não sei se Cecília já teve gatos quando pequena, nunca perguntei. Até onde eu saiba, Cecília nunca tivera animais de estimação. Mas era como se um turbilhão de lembranças fizesse com que ela enchesse de cuidados aquele pobre diabo.

O gato nem gemia, nem miava. Só se via seus grandes olhos verdes pesadamente abertos e sua respiração vacilante. Cecília acariciava-o delicadamente, como uma mãe que, a esperar a morte do seu filho, sorri tristemente com a promessa ingênua de que tudo vai ficar bem. A mulher racional, orgulhosa e egoísta que deplorava bebês, tinha em seus braços agora um gato como se fosse ele uma criancinha. Tinha postura de mãe, embora eu jamais a vira como tal. Namorávamos sem perspectivas. Eu queria filhos e ela não. Eu tinha grande apreço pela família e ela simplesmente não suportava a minha. Mas, fitando-a naquele estado, sendo mãe, sendo mulher em seu significado de zelar pela vida, proteger e ser amor cândido aos seres frágeis, toda a raiva que sentira por ela se foi. Eu só queria ter Cecília comigo pelo resto de minha vida. Era como se as duas criaturas mais encantadoras e doces da face da Terra se juntassem ali, naquela cena, para amolecerem o meu coração e para me fazerem sentir uma inveja inocente- da fofura do gato, que ele tinha mesmo estando naquele estado, e da delicadeza tão espontânea e tão perfeita com que Cecília lidava com aquele animal.

O pobrezinho não aguentara o peso de suas pálpebras e fechou, derrotado, seus grandes olhos. Mas seus pulmõezinhos ainda não tinham desistido. Expeliam o pouco ar que cabia dentro dele cada vez mais discretamente. Com toques que o gato nem sentiu e sem que seu corpo se desajeitasse, as mãos de Cecília acolheram o gato. Colocou-o junto aos seios, sem o apertar e, levemente roçou o queixo sobre a cabecinha do gato. Percorreu seus olhos em cada listra que formavam os pelos do felino, atentou para os curativos, para o peito que inspirava e expirava fracamente, para as pequenas patas do bichinho, e para suas duas orelhas fininhas. Por fim, seu olhar parou sobre o focinho terno, que soltou um último suspiro, quase consoante e concomitante ao que Cecília deu. Não havia nada mais fúnebre e poético do que Cecília naquele momento em que viu e sentiu o último sopro de vida daquele gato.

Ajoelhei-me ao lado dela, abracei-a delicadamente. Fitei o gato inerte que estava imponente como todo defunto que, quando está em seu leito, fulge como a alma mais imaculada do mundo. Toda a fraqueza do animalzinho se fora com a morte. E Cecília, a mulher impassível, era tempestades por dentro. Sentia o pulsar do seu coração só de estar perto dela; ouvi o grito de angústia que ela não deu, senti na pele o calafrio que ela sentiu e o nó no estômago que a deixou pálida por debaixo de todo aquele blush. Entretanto, rolou em sua face apenas uma lágrima discreta e silenciosa.

Pito e pito

Sentado na poltrona 16 do trem que do Brás partia para Rio Claro, estava um senhor cujos cabelos ainda não atingiram o branco noel. A maioria dos fios era de um cinza escuro, pelo que o chapéu permitia enxergar. Havia 8 minutos que estava ali sentado, constatou no relógio. Se estava impaciente os que o viram não o diziam. Tinha uma tranquilidade quase indiferente, endossada pelo pito que trazia entre os beiços, tragado calmamente. No corredor avultou-se uma figura rechonchuda, toda desajeitada com as malas de mão. Em seu braço esquerdo estava penduricado uma miniatura de cachorro e na mão desse mesmo braço estava um porta-níqueis que, minutos antes, abrira para dar gorjeta ao carregador. No outro braço, uma maletinha estava alçada no pulso e, na mão, estava a passagem, na qual a madame conferia o número de sua poltrona. Ao constatar que seu assento era mais a frente, pendeu o corpo para o lado direito para pegar a outra maleta que estava no chão.

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Ali- 15.

Olhou para o senhor que fumava o pito. Poderia se dizer que a madame não ficou satisfeita com seu companheiro de viagem. Talvez por ele não ter o requinte com o qual ela estava acostumada. Talvez pelo pito. De qualquer forma, foi pela apatia que se manifestara no primeiro olhar, que a madame não pediu para seu vizinho de poltrona segurar o cãozinho. Ao contrário, deu as costas e voltou-se para o rapaz sentado na poltrona 14:

– Faria a gentileza de segurar o cãozinho enquanto acomodo a bagagem, monsieur?

Era mania da madame usar expressões em francês. Fazia questão. Pois que geralmente esse hábito suscitava perguntas: “Já esteve em Paris?”. “Oui”, respondia com satisfação e punha-se a falar sobre cafés, doces e arte.
Com um sorriso gentil o rapaz segurou o protótipo de cão enquanto assistia a madame, que mal cabia no corredor, colocar a bagagem no compartimento de bagagens acima das poltronas. O senhor da 16 estava com o rosto voltado para o vidro, tal como estava antes da madame chegar. Como se estivesse insultada com o desdém do vizinho, sentou-se pesadamente na poltrona. Deu uma encarada na figura intransigente, e estendeu os braços para o lado oposto, para pegar seu bichinho de estimação. “Merci”. O trem finalmente entrara em movimento. Quinze minutos se passaram como se fossem horas. Alheio às tossidas insinuantes da madame e aos espirros do cãozinho, o senhor da 16 continuava a tragar o pito. Embora o vidro estivesse aberto, o vento empurrava, despeitosamente, na opinião da madame, a fumaça para dentro. Irritadíssima a madame fez o que ela gostava de dizer o nome- tomou uma providência. Arrancou o pito dos beiços do vizinho de poltrona e arremessou-o pela janelinha do trem. O homem, por sua vez, encarou-a com uma indiferença tranquila que, embora a face da madame não tenha revelado, despertou nela uma pitada de medo. Tranquilamente ele pegou o cãozinho das mãos da madame e jogou-o pela janelinha.

– O senhor está louco?!, disse a madame incrédula.

– Ora, ele só foi buscar meu cachimbo…

O contador de histórias

Não que ele tivesse uma vida excitante que os outros invejavam. Não. Não mesmo. Sua vida era rústica, humilde. Seu dia começava quando o Sol mal pintava o céu. A labuta era árdua, mas havia esmero em cada gota de suor daquela figura diminuta, em quem a força, especialmente a força de vontade, transcendia sua estrutura franzina. Havia também, além de suas forças, sua autenticidade, pois que se eu me limitasse na descrição do personagem até aqui, ele seria um herói sem causa e caráter. Caráter no sentido de características que o torna em um-único, ou melhor em um-único por multiplicidades que o tiram da vulgaridade.
A autenticidade dessa figura que, sob o chapéu de palha era só mais um agricultor desvanecido  era algo discreto. Mas assim o era porque os contadores de história são mestres do disfarce. Pois que esse contador de história resolveu levar uma vida medíocre, na penúria, tal como Jesus Cristo, também um contador de histórias, mestre das parábolas e com a retórica típica de um contador de histórias.
Quando os grilos anunciavam o cerrar de olhos do céu, e os vaga-lumes começavam a vagar pela campina, o contador de histórias vinha habitar o lavrador. Depois de um longo dia de trabalho e cuidados com a terra, semeando a autonomia de sua vida- pois, ora ele plantava, ora colhia e alimentava toda a família, e, sua esposa, um holding, que, ora do leite fazia o queijo, ora a manteiga, ora bolachinhas de nata, depois de um longo dia de trabalho, era costume ele e a família se sentarem sob o alpendre da casinha juntamente com os vizinhos, que vinham prosear e tocar músicas. Quando acabavam as danças, canções e prosas, vinha um silêncio atento e sedento por um único-múltiplo timbre, o do contador de histórias.
Sentavam-se todos em roda. Ora o contador se levantava e ficava no centro, ou , na maioria das vezes, era ele um elo da roda. Contava coisas da época de Del Rei, das coisas de terras longínquas, contava histórias das mil e uma noites, adaptadas pelas falhas de memória e verossimilhança, essa que todo bom contador eloquente adota, mesmo sem conhecer a palavra verossimilhança. Contava causas anedóticas, fantasias gostosas que davam esperança a crianças e adultos, que, acalentados, voavam para uma outra realidade, a que existe nos sonhos e nas brumas do pensamento imaginativo.
Todos ouviam extasiados as histórias do contador. Ele não falava bonito, tampouco empetecava a fala. Lembra o leitor de que nosso contador de história não é nenhum professor de gramática ou Sócrates. Mas foi mestre, fez discípulos. Era respeitado, mas, diferente de uma figura imponente, de uma figura oficial, era ouvido não por respeito, mas por interesse, por alteridade em sua forma mais singela. O contador era a vanguarda dos sonhos. Embalava a todos com sua forma de contar histórias. Trazia mundos em linguagem inteligível, mudava o mundo com novos mundos. E assim mudava o mundo para quem o ouvia, porque o mundo para nós nunca será senão o que ele é para nós.
As histórias não eram simples relatos, eram ricas em detalhes, os quais davam as tantas dimensões para que elas se projetassem diante dos olhos dos ouvintes. O contador de história tinha o ímpeto de ator- gesticulava, mudava a voz conforme a história, improvisava cenário, fazia sons, muitos dos quais ele mesmo nunca ouvira. Falava com convicção. Falava com fervor. Falava e alava as palavras, as quais polinizavam a imaginação tão tímida daquela gente.
Das histórias que sei e conto, as que mais prendem a atenção do leitor são as do contador de histórias. Se essa não te cativou, meu caro, é porque não sei contar histórias, não tenho a eloquência, o fascínio de um contador. Mas, ouso dizer, aqui escrevo por me preocupar com o contador de histórias- tantas histórias ele contou, histórias que nem mesmo viveu em corpo, histórias de gente que sequer conheceu, que isso o torna quase um historiador. Na verdade ele é um historiador sim. Criou histórias também- história-criador, historiador por aglutinação. Se não fosse o contador de histórias, ou historiador, se preferir o leitor, histórias seriam esquecidas, outras jamais existiriam. Preocupo-me, pois, com tal: o contador de histórias contou tantas histórias, mas quem é que vai contar a história dele?