Meus avôs morreram num domingo

Meus avôs morreram num domingo. Como se suas existências simples não quisessem se complicar na morte. Como se para não atrapalhar as rotinas das pessoas tão atarefadas, sem muita disposição para as conveniências fúnebres. Ela, a Morte respeitou o dia de descanso, o dia que Deus deu a nós por misericórdia, para realizar seu trabalho – levou-os no dia em que a família se reunia, uma predisposição ao velório. Há quem diga que família só se reencontra em casamento e em velório. Mas a minha família se reúne aos domingos.

Meus dois avôs tinham relações distintas com a Morte, disso tenho certeza. Um sentira seu bafo quente já de pequeno. Sua saúde oscilante foi cercada de promessas. Levaram sua foto, um garoto franzino e assustado, em alguma capela importante. Seu nome peregrinou em várias novenas e missas. Ainda jovem adulto, teve seu primeiro infarto. Foi levado à capital e deixou parte da família aflita. As notícias esparsas que chegavam dizia que seu quadro era grave. As filhas, ainda moças, choravam como órfãs. Mas, antes mesmo da esperança, o pai retornou. Voltou pra casa, contudo sempre olhando de esguelha pra ver se a Morte não se escondia em sua própria sombra. Às vésperas do casamento da filha mais nova, deu de adoecer de novo e não pode comparecer ao casório, uma falta que ainda ecoa na filha.

Havia essas intermitências em sua saúde. Era sempre grave. Todos se antecipavam no luto, mas ele era as cinzas que, sopradas, incandesciam novamente. Entretanto, surpreendeu-se ao conhecer suas netas e neto. Todos. Quatro. E a mais velha fizera 5, 10, 15, 20… 23 anos! Quem diria…

Em todos esses encontros com a Morte, não sei o que ela e meu avô negociaram. Meu avô só sabia negociar galo de briga. Não creio ter havido pactos com a Velhaca. Talvez fosse ela que hesitasse: era covardia chegar ao mundo dos mortos com uma alma tão leve nos braços.

De qualquer forma, esse meu avô nunca fugira da Nefasta. Mas não posso afirmar que ele não tivesse medo dela.

O outro avô sempre fora mais forte de saúde. E sua estatura também fazia qualquer um duvidar de suas fraquezas. Essas eram ocultas. Fraquezas no caráter. Tinha, vez ou outra, suas moléstias físicas, mas essas não eram tão funestas a ponto de evocar a Temida. Acho que esse avô, no fundo, por não ter ainda tanta intimidade com a Morte (a morte era sempre a dos outros), tinha um baita medo dela. E, por isso, mesmo com um pequeno resfriado, ele expunha sua doença mas reiterava que ia ficar bem, numa tentativa de arregar a Morte, se ela estivesse rondando, com sua convicção bem viva.

Morreu assim, de repente. Um mal-estar banal, um desconforto intestinal e, puf. Mortinho. Sofremos muito. Sofremos o desaviso da morte. Ela veio sorrateira. Ele sim tinha sombra grande o suficiente pra esconder a Implacável. O dia nascera lúgubre. Um domingo nem quente nem frio. De cores cinzas e amareladas. Um céu nem sol nem chuva. E um silêncio dominical de uma cidade pequena do interior. Era o dia de glória da única funerária de lá.

O outro avô, que estava certo de morrer precocemente, viu o sogro da filha rendido à Imperatriz. Viu as pessoas chorando num velório que não era o dele. Por fim, colecionou muitos mortos durante a vida, e talvez fosse contando seus mortos é que ele contasse seus anos. Sua vida sempre por um triz.

O dia, enfim, de sua morte oficial, chegara como o dia de um casamento. Havia dias que ele estava estirado na cama do hospital, com as mãozinhas repousadas sobre o ventre, ensaiando para o funeral. Ele esperava a Noiva.

Foram dias infinitos. Diversos procedimentos médicos. Diversas medicações. Era pressão que caia, pressão que subia. O coração desenhava gráficos bizarros no frequencímetro, como se para fazer auê. A Morte, em relação a esse avô, era vaidosa, queria ser percebida. Fazia alarde.

Durante esses dias, seus órgãos foram parando. Um por um. E aí vinham as próteses, os aparelhos- para respirar, para evacuar, para pulsar… Só o cérebro ficou lá, nos trinques. E talvez isso seja o que dói mais. Ter consciência da Morte te levando as partes, aos poucos. Estar de olhinhos bem abertos pra ver a cara que ela tem.

O luto da família, iniciado tantos anos antes, agonizava nesse vem-não-vem da Morte. E, no fim, todos sabiam que o melhor era aceitar que ele partisse, mas ninguém estava certo de se sentir preparado pra isso.

Contudo, num domingo nublado, nas horas preguiçosas logo depois do meio dia, quando meu avô costumava esperar seu golinho de café,  ela se decidiu e o levou para o altar.

Mesmo depois de tanto luto, havia ainda muita chuva em nossos olhos. E nos invadia aquela questão: “será que ele viveu bem, mesmo vivendo sempre pertinho da morte?”. A espera crônica pela morte é vida? E a vida é sempre isso, afinal- a espera da Morte, ainda que às vezes não pensamos nela?

Não sei, não sei. Mas fato é que a gente só se da conta da vida quando a morte está por perto. Os olhos humanos precisam de certos contrastes.

E, falando em olhos, eu realmente acho que os meus avôs viram a Morte de perspectivas diferentes. Um com susto, o outro com resignação. Talvez. Mas acho que ambos tiveram medo. “Pra onde ela vai me levar?”, eles devem ter se perguntado. E, nessas horas, a gente deve duvidar da própria fé, até os ateus, que, por fim, acabam por desejar a existência de um deus. Ainda se a Morte vier com voz sedutora, com carícias afáveis… Ela vai, certamente, causar um calafrio, como essas mulheres atraentes e seguras de si mesmo. Eles sentiram medo. Eu não tenho dúvidas. Mas impossível dizer qual dos medos foi maior- o de ser beijado pela primeira vez por Ela ou o de reencontrar a Velha-Conhecida.

Lauda sem verso

Eu era ali pra ele uma página em branco. Assim como ele o era pra mim. Por isso a excitação. Sendo ainda desconhecida, eu podia me inventar. Podia dizer sem me contradizer, porque não dissera nada antes. Podia mudar minhas opiniões, pois que, pra ele, minhas opiniões ancestrais não eram conhecidas. Eu podia expor ali uma das tantas facetas da minha personalidade, de acordo com a minha vontade, porque eu não tinha o compromisso de saber qual faceta ele mais gostaria em mim.

É fácil e absurdamente instigante ser-ter uma página em branco. É um começo. Novo. Não tem nada de recomeço e, portanto, nenhuma bagagem, o que torna o novo leve. Quando se é-tem uma página preenchida, se está sujeito a insatisfações. A página está cheia e, por vezes, não se sente disposto a preencher aquele pedacinho entre as espirais que ainda está vazio, aquele espacinho que se desconhece da pessoa; não se atenta ao que falta e dá-se a página por esgotada. Só se pensa em acabar o parágrafo com um ponto final.

Uma página cheia pode nos cansar, porque às vezes a gente quer mudar a caligrafia, mas tem medo de estragar a página. Além disso, sempre há algo na página que a gente quer apagar, mas eu garanto, não adianta. Essas páginas, quando não escritas à tinta inexorável da caneta, são grafadas a grafite 2B, de forma que a borracha esfolia o traço, mas não leva o sulco do papel. E a marca sempre permanece, rasurando a lauda. Daí a necessidade de virar a página. Colocar no cabeçalho uma nova data para alimentar a ilusão de que os tempos mudaram. A necessidade de preencher a nova página de forma diferente. A necessidade de ser diferente para que a página de alguém se preencha com aquilo que você almeja que enxerguem em você.

Retomo ao encontro de páginas. Às interfaces novas: e assim estou eu com uma página em branco agora. Vou preenchendo-a com minhas impressões e constatações; com versões daquele se desnuda e se esconde. Preencho a página em itálico e com letras cursivas, pois que já me cansei das letras de forma que se deformam já nas primeiras linhas. E escrever cartesianamente demora muito. As arestas pinicam as margens. Em letra cursiva inclinada, a página vai ficando elegante e cheia de curvinhas. Em letra apressada, a página vai se enchendo bem rápido. E eu sei que a página em branco já não está mais tão em branco quando como comecei essa crônica. As letras em itálico mostram minha sede por esgotar as páginas em branco pra ver até onde vai esse caderno e pra ver se, no final das folhas, quando a costura de um livro que perdeu as espirais dificultar a escrita, pois quer já fechar o livro, eu desisto da escrita ou se, retomo o caderno reciclando as folhas.

Conquista atualizada

983 amigos no facebook. 345 curtidas em uma foto que nem estava no perfil. E um monte de comentários idiotas de caras idiotas. Tinha até brincadeirinha com o nome dela, na foto de biquíni. Um tal de Paulinho escrevera: “Sara sarada ❤ 😉 “. Tudo isso me irritava. Ainda mais porque eu era o namorado de Sara. Ok. Já havia 3 anos que tínhamos terminado. Mas, mesmo assim, eu ainda analisava meticulosamente sua página no facebook. A atitude de detetive não era premeditada pelo ciúmes. Ele vinha depois. Eu diria que era apenas uma curiosidade minha saber como andava Sara. Nos trombávamos de vez em quando, é verdade. Trocávamos palavras simpáticas e notícias breves. Mas ela nunca me contava sobre suas aventuras amorosas. Mas essas eu enxergava nos interstícios do facebook- a proximidade de um mesmo cara em várias fotos, a mão agarrada firmemente na cintura de Sara, os comentários dissimulados mas transbordantes de significações…

É claro que depois de Sara tive outras namoradas, casos e acasos. Porém ela fora a primeira, o primeiro amor. De início éramos pura devoção. Eu ainda persisti. Mas ela já estava entediada. E, agora que já vencera as inseguranças, agora que já descobrira o sexo, já podia se interessar pelos caras mais velhos. E foi assim que, depois de alguns meses depois de terminarmos, ela foi se engraçar com um cara do cursinho. Diga-se de passagem, era o quarto ano daquele cara no cursinho. E nem medicina ele prestava. Era indecisão mesmo, ou medo de assumir uma escolha. Começava um curso, mas preferia a comodidade do cursinho, a boa vida que os pais lhe garantiam. O caráter dele não importava às meninas, ele era tolo, mas engraçado. E, claro, era lindão. E fazia academia. Eu ouvia sempre as meninas dizerem que ele era puro sex appeal e que a pegada dele devia ser boa. De qualquer forma, logo Sara se cansou dele também. Ou queria estar solteira quando entrou na faculdade.

Na faculdade ficou com um veterano, na festa dos bixos. Depois, durante o intercursos, beijou um cara da atlética, que cursava engenharia mecânica. Isso quem me contou foi o irmão de um amigo meu, veterano dela. O resto vi pelo face mesmo. Vi que o amigo de turma, o Tom, cara que sempre estava nas fotos, postara um comentário duvidoso em uma foto em que ambos estavam deitados na grama rindo e apontando pro céu. O Tom não durou muito, mas até mereceu mudança no status de relacionamento do facebook, um pouco depois dessa foto. Depois foi o Gui, um cara que já estava fazendo estágio. Ela se amarrava em homens de traje social. E a defesa do tcc desse cara ela fora assistir. Não por interesse, mas pra tirar uma foto com ele arrumadinho e postar no face: “Parabéns, gatíssimo. Mais uma fase vencida. Espero te acompanhar nas próximas conquistas”.

Gui mudou de cidade (o facebook anunciou num “Mudou-se para…”). E então foi a vez do Marquinhos. Estava fazendo mestrado. Pela cara de meninão, deve ter escolhido o mestrado por status e porque não queria sair da universidade tão cedo. Marquinhos também não durou muito. Nem vi tantas fotos nas redes sociais. Acho que ele não demonstrava tanto seu amor por Sara em público. Ela não deve ter gostado da discrição. Depois dele vi umas fotos aí. Festas com a galera. Em uma delas tinha um cara bêbado a abraçando e beijando seu rosto. Ela com uma cara bizarramente bêbada, rindo-se da situação. Juro que sempre que eu olhava a página de Sara sentia um mix de repulsa: nojo, inconformismo, ignorância, piedade, decepção… E também um sentimento de traição. Apesar disso, eu nunca deixava de fuçar na vida de Sara.

Essa semana eu o fiz de novo, pra variar. Dessa vez deve ser um tal de Vini. Porque tinha uma foto dos dois. Ela e o Vini, de terno, em frente a uma tela de projeção onde dava pra ler:

“Aluno: Vinícius Soares de Camargo

Doutorado em Engenharia Elétrica”

O pior era a legenda irônica da foto. Uma baita de uma legenda ambígua (talvez propositalmente ambígua, já que ela adorava publicar suas conquistas): “Mais uma conquista: Vini, doutor”

Uva, uva passa

Era o segundo natal sem titia Devassa. Chamávamo-la assim pois que ela mesmo adotou o “codinome-de-mulher-pantera-fera-raawww”. Era a mais “jovem” dentre as quatro irmãs. Como viu as outras três ganhar rugas primeiro que ela, decidiu-se um dia, jurando diante de um espelho ao seu fiel reflexo ainda sem rugas: “Não quero ficar velha que nem minhas irmãs que, além das rugas, aceitaram serem caretas”. E desde então, tia Devassa iniciou-se na ritualística síndrome de Peter Pan. Malhava muito pra manter o corpo delgado e teso, mas precisou colocar silicone para manter as coisas devidamente no lugar. No rosto, por de baixo da espessa camada de maquiagem, os poros estavam sufocados com bastante creme anti-idade, como se ele fosse capaz de conter o implacável tempo. Mas, no fim das contas, com sua magreza sarada, com seus cabelos extravagantemente loiros, com seus peitos invejáveis, vestida em roupas atrevidas que as irmãs rechaçavam boquiabertas, e com suas rugas contidas, titia Devassa parecia, de fato, bem mais nova do que sua idade requeria. Mesmo tendo 63 anos enquanto eu tinha 30, ela sempre dava um jeito de ir aos bares comigo e no final da noite sempre levava um dos meus amigos pra cama. Ela vinha com aquelas frases virulentas que se tornavam clássicos de nascença e logo ganhava a admiração e simpatia de todos. Depois, “como uma pantera”, ela focava em uma presa e jogava seu charme sensual (que para mim, na condição de sobrinho, era repugnante).

Foi difícil eu ter uma opinião sobre ela. Quando pequeno ela me parecia um pouco assustadora, escandalosa, e, não se contentava em apertar minhas bochechas- dava-me também um tapinha safado na bunda, dizendo: “E aí, garoto, já tá atrás de alguma menininha?”, quando eu só tinha 6 anos de idade. Minhas bochechas ficavam mais rubras de vergonha do que pelo forte apertão que ela me dera e, nessa época, ela estava na minha coleção de pessoas que eu evitava nas reuniões familiares.

Em um natal, contudo, a ideia que tinha de tia Devassa mudara, não sem um subterfúgio material da parte dela. Pois foi que ela me presenteara com um vídeo game! O brinquedo mais descolado e invejável da época. Eu, que era um garoto anônimo na escola, logo comecei a atrair amigos interesseiros (antes sequer sabiam meu nome) que faziam de tudo para serem convidados a desfrutarem do meu Atari 7800. Minha mãe vivia reclamando que eu não saía do vídeo game, mas tenho certeza de que, o que de fato a incomodava, era minha tia ter me dado um presente tão caro e, pior, ter ganhado minha simpatia.

Aos meus 11 anos de idade, com uma maturidade bastante pueril e nem sinais de puberdade, eu descobri o sexo. Não, não transei aos onze anos, mas descobri o sexo em suas vertentes mais assombrosas (assombrosas para mim naquela época). Embora eu tivera tido, nas aulas de ciência, uma introdução sobre as diferenças fisiológicas e anatômicas entre homens e mulheres e uma vaga noção de que o homem colocava alguma coisa na mulher pra ela ter um filho, eu já mais vislumbrara a obviedade- o homem introduz o pênis na vagina. Essas coisas eram sempre dissimuladas pelos eufemismos nos livros de ciência da quarta série- “cópula”, “coito”, e por aí vai… Mas, um dia, quando fui passar a tarde na casa da tia Devassa, estávamos assistindo Star Wars no quarto dela e, enquanto ela preparava pipoca, eu vi sobre seu criado-mudo um vibrador. Com a ingenuidade de um garoto de 11 anos perguntei o que era. Com um ar surpreso e sua voz de deboche, respondeu-me sem comedimentos: “É um pinto de borracha!”. Vendo-me ainda confuso, ergueu os olhos e os fez girar, como se estivesse enfadada, e começou a me explicar iconoclastamente o que era sexo.

Conforme fui crescendo, cultivava certo receio de que minha tia tinha uma queda por mim. Tinha a impressão de que ela era tarada demais, sempre me dando tapinhas na bunda, mesmo eu tendo meus 16 anos. E, aposto que minha mãe também tinha certo receio, porque era ela sempre relutante em me deixar passar tardes com titia Devassa. Mas o fato é que nunca acontecera nada. E aos poucos eu comecei a confiar verdadeiramente em tia Devassa. Ela foi a primeira pessoa a quem eu contei sobre minha primeira transa. Era a única com quem eu conseguia falar abertamente de coisas “constrangedoras”.

Mas sempre permeou uma ambivalência sobre o que eu sentia por tia Devassa. Se por um lado eu a tinha como amiga, como companhia hilária e divertida, por outro me incomodava sua artificialidade. Eu desejava vê-la nua. Não nua como meus amigos desejavam, mas a queria nua daqueles artificialismos- nua daquela silicone, nua de todos os cremes e maquiagem, nua da tinta de cabelo, nua das bijuterias coloridas. Porque eu tinha a impressão de que não a conhecia verdadeiramente e temia que toda a ideia que eu tinha dela fosse apenas uma máscara, um artifício, um fingimento e que, na verdade, bem no cerne, ela queria mesmo é ser como suas irmãs, já senhorinhas gentis e recatadas, que fazem bolo de cenoura aos filhos quando vão visitá-las. E acho que tia Devassa sempre quis ter um filho. Não fosse pelo apreço com seu corpo, teria tido uns cinco. Mas, contentara-se em cuidar de mim, à sua maneira, claro, para não demonstrar afeto maternal piegas.

Faltava uma espontaneidade humana nela. Faltava a aceitação de sua humanidade. E isso começou a me incomodar. Quando minha tia mais velha morreu, eu percebi que a única que poderia afirmar a humanidade de tia Devassa seria a morte. E, que vil dizer, comecei a esperar ansiosamente pela morte de tia Devassa. Era-me insuportável o papel que ela encenava, por mais que fosse divertido vê-la em suas extravagâncias. Eu enxergara, então, que ela também odiava o teatro da sua vida, embora estivesse sempre gozando de divertimento. Mas foi justamente pelo divertimento que tia Devassa se apegara àquele fingimento e agora, pobre titia, não conseguia se libertar. É por isso que eu ansiava sua morte. Só assim ela se libertaria. E aposto que no céu não teria mais que fingir, porque alma não tem forma, só o caráter destilado.

A morte enfim lhe veio aos 74 anos. Idade em que ainda mantinha uma vida ativa (em todos os sentidos). No caixão jazia esticadinha, com pernas, braços e a pele do rosto esticados. Eu sentia alívio por saber que a liberdade da tia Devassa finalmente chegara, mas também sentia uma profunda saudade, desde já, da sua descontração irreverente. Contemplei seu corpo amarelado e frio. Embora o rosto ainda estivesse enrijecido com botox, vi que seus braços estavam com aparência de uva passa. E é essa a imagem que me vem quando me lembro do velório da tia Devassa- ela, no caixão, transfigurando-se de humana para uva passa, como se fosse esse o desnudamento que sempre desejei ver.

Depois da morte da minha velha tia, substitui a minha implicância com seus artificialismos pela implicância com minha prima Carmen. Ela era impertinente demais e sempre escolhia os piores namorados do mundo. Tipo o Ricardo, um cara que ficava lambendo sua orelha mesmo estando todos da família reunidos à mesa para uma refeição. Dessa vez, no segundo natal sem titia Devassa, era o Jonatas, um cara que, além de inconveniente, chegava a falar coisas abusivamente ofensivas que deixavam todos perplexos. E o que mais me irritava é que ninguém da minha família exigia o devido respeito, e o rapaz continuava a dizer suas besteiras.

Eu que nunca tivera a iniciativa de protestar-me contra o que quer que seja, enchia a boca com panetone para me distrair das asneiras proferidas pelo “Johnny”. Simultaneamente, enquanto eu fiquei desolado por ver uma uva passa cair da minha fatia de panetone, o intruso se atreveu a perguntar, em tom irônico, olhando uma foto de tia Devassa na parede: “Mas quem é essa coisa?”. Levantei-me insultado da cadeira, e, com a boca ainda cheia,  bradei: “Essa uva passa era parte da fatia”, quando, na verdade queria dizer: “Tia Devassa era parte da família!”.

Intertempos

Quando olhei para o céu, naquele instante pareceu-me que, repentinamente, as nuvens estancaram, como se o tempo parasse e, com suas mãos congeladas, segurasse o vento hermeticamente, impedindo-o de arrebanhar as nuvens.

Querendo uma segunda opinião, interrompi Ariadna de terminar o desfecho de um episódio de sua epopeia pessoal e sussurrei, como uma criança que quer a certeza vinda de um adulto:

-Ari, olha pro céu- as nuvens e o vento pararam?

-Ahn? Você faz cada pergunta… Não, tudo está girando junto com a terra. Você sabe… Aquela força de Coriollis, né? Respondeu-me um pouco impaciente por eu não estar atenta ao que ela falava anteriormente.

E quando voltei meus olhos pra cima, enquanto Ariadna voltava a falar, as nuvens também voltavam a se mover. Às vezes eu pensava que era a ciência que colocava movimento nas coisas, que era a ciência que incomodava as pedras. Tudo estava quieto e a ciência fuçava, inventava de pôr as coisas em entropia. Ou entropia nas pobres coisas que só queriam ficar em zero absoluto.

Naquele instante em que vi o tempo parar, tenho certeza do que se passou- peguei o tempo em flagrante, distraído. O tempo, coitado, ele já está muito cansado e, quando ninguém está olhando, ele simplesmente para em descanso. Pra compensar, quando as pessoas se atentam ao seu curso, ele corre, para não se atrasar.

Probabilidade

Ela era uma menina feia. Não que tivesse traços que lhe conferissem uma aparência repugnante. Se a olhasse bem e se ignorasse os padrões, poder-se-ia dizer que era até bonita. Acontece que, estatisticamente falando, era menos provável que fosse notada como mulher. Entrava na sala de aula e os que percebiam sua chegada ficavam indiferentes e logo desviavam o olhar. Quando se prostrava no ponto de ônibus, os demais que o aguardavam não se interessavam por ela, nem mesmo as senhoras que adoravam tagarelar puxavam papo. Senhoras tagarelas tendem às crianças e moças graciosas e, no caso das solteironas, aos homens bonitões ou aos senhores charmosos potencialmente solteiros também. A moça não era graciosa. Não tinha charme. Ou seu discreto charme estava na ausência do charme.

Eu, apesar de homem, sempre pensei no quão injusto Deus é com as pessoas, especialmente com as mulheres, que são como flores- a algumas dá as mais belas cores e mais agradáveis perfumes, enquanto que a outras dá as formas do anonimato, da camuflagem. Injusto porque, estatisticamente falando, as flores anônimas dependem dos ventos do acaso para encontrarem o amor. Será que Deus controla o acaso? Porque, senão, ele é mesmo injusto, por não compensar a carência de atributos a alguns. E será que o amor é um direito inalienável de todos? Se não for, Deus é realmente injusto e tendencioso.

Ela não era bonita e, portanto, era pouco notada. Se houvesse alguém no mundo que fosse perfeito para ela, no sentido de complementar sua existência, como todo mundo espera, poderia não a ter notado? Poderia? A probabilidade garante e insiste nessa possibilidade, porque uma moça feia tem menor espaço amostral de pretendentes e seu amor pode estar fora do conjunto. Mesmo que ela fosse a pessoa mais simpática do mundo, teria, inquestionavelmente, menos observadores e, portanto, menos pretendentes, pois que menos homens teriam ido conversar com ela e, consequentemente, menos homens teriam conhecimento de sua simpatia. Mirela, que estudava na mesma classe que ela, por outro lado, era visivelmente linda. Tinha traços que, isoladamente, eram exagerados e até feios- olhos enormes, lábios muito carnudos, seios protuberantes. Mas, todas essas características, quando olhadas em conjunto, eram todas harmônicas. Mirela estava sempre cercada por homens e namorara bastante, eliminando, assim, possíveis candidatos a serem sua “alma gêmea” (ou oposta, para os que acreditam que “os opostos se atraem”) , que, na verdade, não eram.

Digo tudo isso porque, quando vi Mirela, quis me aproximar e conversar com ela, como quer uma abelha se aproximar de uma flor vermelha e perfumada. Querendo sempre olhar para Mirela, poder sentir seu perfume bem de perto e deleitar-me no desejo, a pedi em namoro. Durou enquanto meus olhos estiveram cegos pela beleza de Mirela, enquanto meu corpo se satisfazia nos prazeres do corpo de Mirela, enquanto meu coração tinha seus olhos fechados para os sentimentos que realmente não tinha por Mirela.

Certo dia, já sem pensar muito em encontrar uma companheira, uma amante e amiga, enxerguei a menina feia que eu sempre via. Atentei-me, sem saber porquê, sem intuir coisa alguma, a cada detalhe do rosto e do corpo da menina feia. E tudo o que vi era sutil, como se ela fosse uma orquídea selvagem, sem perfume, sem cores; era sutileza e discrição; bonita em sua beleza insólita ou em sua feiura banal. Cada traço dela me era agradável. Bonita não, ela não era de fato, mas também, já nesse momento, não me parecia feia. Beleza e feiura dependem da instabilidade dos outros. Ou dependem dos ventos (Deus querendo ser justo?). Ela, que já não me era mais feia, era uma orquídea recatada, e eu, uma abelha sem asas, dirigi-me em sua direção- a direção que os ventos sopraram.

Crônica espontânea

Espontaneidade é ir ao ponto de ônibus e até se esquecer do que se faz lá, que ônibus tomar. Espontaneidade é sair sem ter pra onde, e tampouco se importar com o “aonde”, basta o “com quem”.
Espontaneidade é lapso. É espontâneo. É ter uma ideia e não hesitar em pô-la em prática. É não pensar na burocracia e em todos os entraves que se opõem a ela.

Espontaneidade é fluidez. É sensação de que o universo conspira pela harmonia e pela descomplicação. Espontaneidade é descomplicar. É andar em passos suaves, que mal tocam o chão. É olhar para o céu e achar as estrelas tão mais brilhantes do que o normal. É assoviar enquanto caminha, cantar enquanto anda, dançar quando sente o ritmo. É se achar mais belo, apesar das espinhas, rugas, celulites, cabelo feio. É achar a vida bela, apesar de tanta barbárie.

Espontaneidade é dizer sua idade sem constrangimento. É fazer as coisas de bom grado, por pura benevolência, cujo fim é ambivalente- fim egoísta, pois que se faz bem para si próprio, e fim altruísta, pois que se coloca o bem estar do outro como indispensável.
Espontaneidade é aquela vontade danada de bater na porta do vizinho e desejar bom dia. Espontaneidade é sorrir sem ter por que. E também é não se preocupar com problemas que antes pareciam tenebrosos. E, ah, a espontaneidade não liga muito pras coisas que geralmente causam intrigas bobas.
Espontaneidade é quebrar pedra- libertar-se da estátua de si, liberar a alma inquieta de um corpo estático, lânguido e inerte. Espontaneidade é sintonizar-se consigo mesmo, com o que te faz feliz e com todo o cosmos.
Espontaneidade é ousar uma crônica pelas mãos que se acostumaram a escrever na tristeza. Espontaneidade é soprar brisas leves, frescas. É fazer o cansaço sumir do corpo, e o caos se diluir na mente.

Espontaneidade é ser sem cálculos, sem comedimentos. É ter mil e uma razões para estar bem e não saber dizer nenhuma delas. Espontaneidade é se deixar mover por algo discreto e charmoso que está contido dentro de você.
Espontaneidade é não ligar pras conveniências, não deixar que elas catraquem seus sonhos, desejos, princípios. Espontaneidade é a descatracalização da essência, e o caminho em que se chega em casa feliz e pleno.