Tornado

Tornaste,

Tão cedo,

O medo,

O meu medo,

Inofensivo.

 

Fizeste,

Tão logo,

O mundo,

Meu mundo,

Ser calmo.

 

Roubaste,

Tão rápido,

O que eu escondia

No peito-

O meu coração.

 

Assim sutil

E repentino,

Como uma garoa

Ao fim de uma

Tarde ensolarada,

Chegaste.

 

Entraste em minha vida

Molhando os desertos de mim,

Vazios sem fim

Onde eu tinha nada.

Mas ter nada passou.

Pois você,

Ainda que me trouxeste

Calmaria,

És um tornado-

Levantou a poeira

De um coração casmurro,

Revirou a areia

De um tempo que não passava.

 

Te ter ao meu lado,

Caro tornado,

Tem me tornado

Uma pessoa feliz.

Aquele abraço

Estávamos nós dois

Enlaçados num rito pagão.

Esquecemo-nos do depois,

Porque, por ora,

Só nos importava aquele agora,

Cujo metrônomo

Era aquele nosso ritmo sincrônico,

Nossa percussão vigorosa

Dos corações que mal

Se continham no peito.

A uma estrela

Você nasceu há alguns anos, mas continua brilhando. Pensando bem em tudo isso, eu descobri o seu segredo- você é uma estrela. Atravessa o tempo e o espaço para fazer o céu ser mais iluminado, para amedrontar a escuridão, para transcender o vazio da vida.

Você é minha estrela, porque está sempre no meu céu e, apesar da distância (bem menos do que anos-luz), é assíduo em presença. Em meio há tantas outras estrelas você está lá, cintilando, mais do que as outras. Que nem no cinema. Há muitas estrelas. Umas brilham mais do que as outras. E você é estrela importante do meu céu, estrela brilhante no filme da minha vida.

Que nesse dia o céu seja seu. Que, daqui pra frente, Woody Allen dê um passo pro lado na calçada da fama para que você ande ao seu lado- com sorriso no rosto e com seu olhar de fascínio, olhar de estrela.

[Ninguém devia parabenizar alguém por ter nascido. Até onde sabemos, é uma escolha que independe da nossa vontade. Deve-se agradecer. Não agradecer por ter nascido, isso se faz aos pais que o geraram, mas agradecer por compartilhar vida. Porque, no fundo, é assim, quem gosta de você, compartilha a vida e, portanto, hoje, faz aniversário com você. Obrigada, poeta]

Ouço uma nuvem a vagar no céu

A alguém por quem sou eternamente responsável.

Você não deixou fotos, mas tem as músicas que você me deixou, o sorriso de canto de boca em cada lugar pelo qual você passou, as juras de amor que, mesmo não cumpridas, jamais nos esquecemos.
Ficou a sua frase-cúmplice, que se cruzava com a minha dos ventos e, pensando nela, eu juro, eu fico em paz. Ficou o apelidinho besta, que, quando me escapa para adjetivar algo, faz-me sentir traidora da nossa nomenclatura. Ficou sua voz dizendo num tom onírico, mas sem perder seu timbre, coisas que me acalentam. Ficou na minha mão direita o pulsar do seu coração e, em meus lábios aquele beijo inusitado, inesperado, inexplicável. Ficou no meu pulso a pulseira sem nós que você me fez. Ela não se deforma, apesar de você a ter achado frágil. Às vezes ela quer se soltar. Isso me traz um incômodo, como se fosse o destino dizendo para que eu a desamarre e liberte-me dessas lembranças. Mas então, eu puxo uma ponta do nó frouxo com as pontas dos dedos e a outra seguro entre os dentes. Eis o nó firme novamente. Eu definitivamente não quero me esquecer.
Ecoa agora tudo aquilo que não dissemos com a boca, que saiu dos nossos olhares. Esses que se amarraram tão fortemente como o nó de escalador. Esse laço tão intimamente nosso, tão secretamente nosso, que o mundo sempre desconheceu.
Meu olhar agora é tristonho por me lembrar do seu olhar tristonho que dizia que a gente precisava passar mais tempo juntos. Mas teria sido tão inefável como foi se fôssemos assíduos em combinar encontros? Pois eu os preferi espontâneos, frutos de um acaso-eros, de surpresas boas, da nossa inesperança.
Você sempre está nos meus pensamentos. Não como algum tipo de pendência, alguém que eu esperarei eternamente. Você se faz presente porque é parte inegável de mim, do mais cativo cantinho do meu coração. Você despertou em mim a alteridade em sua forma mais meiga, alteridade de criança. Te tive com o fascínio, com a curiosidade, e com o mais sincero amor de uma criança.

Da sua eterna infante.

Por Acaso

Foi um iceberg. Aparentemente não parecia ser de grandes proporções, era só fazer alguns desvios e, tudo bem, eu não iria me afundar nessas águas. Mas, quando cheguei perto- perto de perder, eu soube. Além do que eu via, havia. Havia algo grande, que a gente não percebe. Como se em nós fosse um parasita que, só depois de muito tempo hospedado, percebemos a presença por alguns sintomas.

Foi assim. Eu só via a ponta do iceberg. Os sintomas vieram tarde- tarde demais para desvios maiores, tarde demais para cura ou tratamento, você já estava no lugar mais cativo do meu coração. Intrínseco.

Os ventos foram soprando e eu fui à deriva em água incertas, criando sempre icebergs.

Agora sou náufraga. Já imersa na água.

A um amigo

Lembro-me que quando eu pedia algo de presente, isso nos tempos de meninice, meus pais nunca deixavam explícito se eu ganharia o que pedi. Mas eu, até então, como filha única, criava expectativas e quase uma certeza de que eu ganharia. Quando chegava uma data, natal, aniversário ou dia das crianças, eu esperava receber o que havia pedido, mas eles sempre me davam algo que eu não desejava, especialmente roupas. Aí, quando eu já esmaecia e a frustração tomava conta de mim, eles surgiam com outro embrulho e, zás, era o que eu havia pedido. Isso se chama mimo. Pois bem, escrevo isso porque gostava de ser mimada, principalmente em datas especiais, como meu aniversário. E também, dizem que o melhor presente que você pode dar a uma pessoa é justamente aquilo  que você gostaria de ganhar (pelo menos do seu ponto de vista).

Escrevo isso agora como se meu texto fosse um mimo. Como os mimos dos meus pais: primeiro você cria expectativas, depois pensa que tudo foi por água abaixo e, de repente, você se surpreende. Primeiro você acha que eu me lembraria do seu aniversário (claro, as redes sociais dão uma boa ajuda nesse sentido), mas depois, como não manifestei publicamente meus votos de bons cumpleaños, pensa que eu me esqueci ou ignorei o seu aniversário e talvez, por um bom tempo, você tenha pensado “puxa vida, que falta de consideração”. Entretanto, e assim espero, você vai se esbarrar com esse texto e, espero também, que vá sorrir por ele ser tão bestinha e por você ter sido bobo ao pensar de que essa data passaria em branco. Você vai saber que esse texto é pra você.

Seria legal te dar um abraço hoje, mas as perspectivas de te encontrar por aí foram mínimas e eu me ausentei dos lugares corriqueiros. Pensei ser legal te ligar e desejar feliz aniversário e tudo aquilo que se deseja nessas datas, mas não me expresso melhor falando. Daí pensei em escrever, o que me trouxe aquelas reminiscências da infância. Então decidi escrever mesmo, mas não por mensagem ou facebook, nem mesmo em um papel bonito.Escrevo aqui, porque isso, de alguma forma, é especial pra mim. Escrevo aqui para que você tenha uma surpresa de aniversário, não necessariamente na data do seu aniversário. Porque, em minha opinião, a alegria é tão maior quando você espera algo, se frustra, mas, depois, descobre que nem tudo falhou.

Isso me lembrou outra coisa- que a felicidade só tem sentido quando se sabe o que é estar triste e/ou frustrado. Escrevo isso aqui porque é algo pra se levar com a vida, porque a gente é muito hipócrita às vezes ao reclamar da tristeza. E, quer saber? A gente reclama por ser impaciente, então, muito mais do que amor, saúde, sucesso, desejo-lhe paciência! Sim, essa mesmo, ela mesmo, que é prelúdio para aqueles- amor, saúde e sucesso.

Desejo-lhe uma sede insaciável por coisas novas, por outras perspectivas. Porque reside nessa sede a propulsão da vida, a evolução de nós, a revolução em nós mesmos. E, com essa sede, vem uns bônus- o respeito pelas diferenças, a alteridade, uma história ampla de vida para contar para os netos.

Desejo-lhe a opção “dane-se”. Claro, sem ser inconsequente e chutar o balde. Mas, às vezes, a gente dá muito valor, muita importância, empenha muito do nosso precioso tempo em coisas efêmeras, em coisas que não merecem tanto. Em síntese, isso é um desejo de equilíbrio, e esse advém da sabedoria. Só pessoas sábias, que sabem ponderar democraticamente com mente e coração, atingem o equilíbrio.

Também lhe desejo luas, flores, água, vento, plenitude, paz, amigos, erros, acertos, lágrimas, sorrisos, ação, emoção, comoção. Imaginação.

E, só vez ou outra, pés no chão.