Carioteca

Cheiro de assepsia e flúor.

A luz branca como a roupa dele-

Ele que agora se aproxima

Com as mãos cobertas de

Látex.

Cheiro de assepsia, flúor e luva.

Amarelo ali só seu sorriso

Quando me pediu para

Abrir a boca e ver meus dentes.

Entre espátulas, jatos de água,

Sugador que chupa baba,

Espelhinho com babugem,

E fios de saliva que se esticam,

A língua não sabe pra que lado

Deve ir.

Por fim, ele conclui-

A dor de dente é por causa

Das dez cáries que você tem

Aí.

Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiiiiiii!!!

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Saci

I.

Comme ci
Comme ça.
Ici,
Là-bas.
N’est pas comme ça?
Si.

II.

Plano traçado,
Crinas trançadas.
O pito roubado,
Perna perdida
No jogo-áfrica
Que se casou no
Brasil.

III.

Saci-pererê
Matita perê
Saci-cererê
Saci-saçurá.
Redemoinha do
Rio Grande do
Sul ao norte
do Pará.
Se o vento não
Sopra,
Se o tornado
Estanca,
Há quem tente
Lhe tirar o gorro.
Se o redemoinho
Levanta poeira,
Há quem lhe jogue
A peneira,
Empeixando-o na rede.
Há quem tente-
Quem conseguiu
É lenda.

Fim de rima, fim de sonho

E naquele instante

Soube prontamente

Que o sonho pedante

Quisera alienar a mente,

Distraí-la da realidade,

De modo a incorporar, risonho,

O som da crueldade

Do despertador que a noite ponho

Para me tirar da onírica faculdade.

E assim sonhei que o som estridente

Misturava-se à cena

E, enquanto o trem vinha, sorridente

Eu via uma mulher- é a amada que

Me acena!

O som do despertador

Torna-se o barulho do trem,

Então, nos sonhos, tudo estava bem,

Porque os sonhos servem para isso-

Para impedir que a realidade

Atrapalhe a realização de um

Desejo,

O de dormir mais um pouco.

Retesável ironia da relatividade

I.

O refugo de uns

É o alimento de outros.

A desgraça do pobre

É o sustento do rico.

II.

A  copa das árvores são raízes voltadas ao céu,

E as raízes das árvores são galhos que escavam a terra.

As aves se exibem por seu voo

E os insetos voam recônditos.

III.

O rio almeja ser mar

E o mar, salgado, arrepende-se de não ser mais rio.

A criança anseia por ser gente grande

Mas só na velhice entende a grandeza infante.

IV.

O sábio estuda pra deixar de ser ignorante,

Mas desaprende a ser alheio.

E em meio às irresoluções da vida

Esqueceu-se de como é ser simplesmente feliz.

Frequentes vezes

Às vezes é difícil esconder a tristeza num sorriso,

Às vezes é difícil dizer o que realmente precisa ser dito,

E fazer aquilo que essencialmente deve ser feito.

Às vezes não dá pra segurar as lágrimas que nem deveriam surgir

Nos olhos que às vezes custam a enxergar,

E às vezes, por mais que andemos, parecemos nem caminhar.

Deitamo-nos na cama, mas não conseguimos sonhar.

E o sonho que sonhamos é esquecido,

Porque pensamos que o sonho só é sonho por nunca poder ser vivido,

E nem sequer tentamos, temos preguiça de nos engajar.

Às vezes temos medo, muitos medos-

Medo do mundo, medo de mudar,

Medo de tomar partido,

Medo da partida, medo de partilhar;

E medo da solidão, medo da insolidez,

Medo de não perdurar, medo de perdoar,

Medo do incerto, medo da insensatez;

Medo de desapegar, medo de se apegar,

Medo de amar, medo do mar;

Medo de abismo, medo do superficialismo.

Mas medo maior é medo do às vezes,

Porque às vezes alguém pede ajuda mas o egoísmo insiste em nos ensimesmar;

Às vezes falta a chuva e o rio periga secar;

Às vezes chove demais e faz a cidade alagar.

Às vezes não temos motivos mas nos sentimos tristes,

Achando que se findaram os momentos chistes.

Às vezes acordamos e o dia convida, mas não temos vontade de levantar,

E às vezes, ainda, o Sol se põe sem que tenhamos visto o dia passar,

Como se fosse a vida quando se finda sem que dela se pudesse gozar.