Imorredoura Glória

Bem vindos os vivos que morreram à nova acrópole

De ruas desertas, onde vaga apenas saudade.

Aqui a morte sepulta ignorando a idade,

Imparcial imperatriz da vasta necrópole.

.

Curioso artifício do qual ela se reveste,

Estatutificando de concreto a existência,

Alvejando das almas tortas a malevolência,

Cercando as sepulturas com cores mortas e cipreste.

.

Em meio à morte, vê-se as tantas flores que não morrem

Contrastando com a matéria em decomposição

Que, debaixo da terra, espera na morte a redenção.

.

A inalterável condição de viver e morrer

Assombra, e está sepultada na coleção mortuária

Onde jaz a ideia etérea de imorredoura glória.

Anúncios

Singelos Versos

A vovô e vovó

Escrevo estes singelos versos

Para te lembrar das coisas belas;

Para lhe mostrar novos universos

Onde são mansas até as feras.

.

Destes versos a simplicidade

É que lhes reveste de beleza

Tal como é feita de humildade

A exuberante natureza.

.

Que estes versos soprem doces brisas

Para levar embora o rancor

E habite em nós o cândido amor.

.

Que estes leves versos te abracem

Como se eles tivessem meus braços

E quisessem sempre seguir teus passos.

Noite Longa

Pus-me a sem sono dormir-

Eis a vontade do céu.

Esperam a noite cair

A mente fria e o fel.

 

A mente preenche o vazio

Trazendo angústia à tona.

Eis o correr de um rio

Que de inquietudes é soma.

 

Momento de lucidez-

Eu enxergo as entrelinhas

Do que vivi na surdez.

 

Os erros que antes não vi

Fazem-me acordar cansada-

nem parece que eu dormi!

Estar doente

A moléstia nem sempre é física-

O espírito também adoece.

Qualquer silêncio é triste música

Quando a angústia vem e olhar esmaece.

 

 

O corpo inerte e alma inquieta.

O tempo é lento, a ânsia cresce.

Sonâmbula- sem plano nem reta,

A alegria dorme e o riso padece.

 

 

Inércia- espírito em letargia.

Mente em chagas, rosto pálido,

O âmago passivo em autofagia.

 

 

A visão turva, coração latente.

Extrema-unção do espírito mórbido,

Eis o funeral de uma alma doente.

Sinal de alerta

Um naufrágio

Tenho que lhe contar em que estado estou-
meu coração está saturado de sentimentos impertinentes.
Enquanto resgato o que eu sou,
você oscila por suas fases intermitentes.

Ora você é uma rocha sobre a qual apoio meus sonhos,
ora você é um infundado desejo platônico.
Arrepio-me quando você toca meus ombros,
desabo-me quando, ao meu, seu passo é antagônico.

Você voltou para me assombrar em todas as circunstâncias.
Dei-me conta de que você é uma ilha-
sempre cercado de inconstâncias.

Deixe-me, contudo, em seus braços naufragar,
e descobrir em seus lábios um porto seguro.
Você é uma ilha a ser descoberta, você é o mar.

Encruzilhada

a um amigo

Quantas vezes eu busquei ouvir

que nem tudo está perdido,

que ainda resta o que está por vir,

que ora com sorte fui ungido.

.

Mas do mau agouro sou réu;

sou realista e também cristão-

minhas mãos levantam-se ao céu,

mas meus pés ainda estão no chão.

.

Não sei mais o que está em ação-

felicidade ora fortuita,

ora por vezes tudo é em vão.

.

Devo ser tal como criança-

desarraigar-me do real

e alimentar uma esperança?

Soneto de Maresia

Oh braços, alvos cisnes lânguidos,

Sois ressaca em ombros lúgubres;

Brisa dos agrestes fúnebres;

Espuma dos mares cândidos.

.

Tendes malícia entorpecente

E a ingenuidade cálida.

Ai, nas noites de lua pálida

Sois brilho do nácar latente.

.

Vosso talhe tem a leveza

Da areia audaciosa do cais.

Oh braços- ondas de pureza.

.

Prelúdio do meu arrebol.

Sois lindas gaivotas faceiras

A revoar sobre o farol.