Meus avôs morreram num domingo

Meus avôs morreram num domingo. Como se suas existências simples não quisessem se complicar na morte. Como se para não atrapalhar as rotinas das pessoas tão atarefadas, sem muita disposição para as conveniências fúnebres. Ela, a Morte respeitou o dia de descanso, o dia que Deus deu a nós por misericórdia, para realizar seu trabalho – levou-os no dia em que a família se reunia, uma predisposição ao velório. Há quem diga que família só se reencontra em casamento e em velório. Mas a minha família se reúne aos domingos.

Meus dois avôs tinham relações distintas com a Morte, disso tenho certeza. Um sentira seu bafo quente já de pequeno. Sua saúde oscilante foi cercada de promessas. Levaram sua foto, um garoto franzino e assustado, em alguma capela importante. Seu nome peregrinou em várias novenas e missas. Ainda jovem adulto, teve seu primeiro infarto. Foi levado à capital e deixou parte da família aflita. As notícias esparsas que chegavam dizia que seu quadro era grave. As filhas, ainda moças, choravam como órfãs. Mas, antes mesmo da esperança, o pai retornou. Voltou pra casa, contudo sempre olhando de esguelha pra ver se a Morte não se escondia em sua própria sombra. Às vésperas do casamento da filha mais nova, deu de adoecer de novo e não pode comparecer ao casório, uma falta que ainda ecoa na filha.

Havia essas intermitências em sua saúde. Era sempre grave. Todos se antecipavam no luto, mas ele era as cinzas que, sopradas, incandesciam novamente. Entretanto, surpreendeu-se ao conhecer suas netas e neto. Todos. Quatro. E a mais velha fizera 5, 10, 15, 20… 23 anos! Quem diria…

Em todos esses encontros com a Morte, não sei o que ela e meu avô negociaram. Meu avô só sabia negociar galo de briga. Não creio ter havido pactos com a Velhaca. Talvez fosse ela que hesitasse: era covardia chegar ao mundo dos mortos com uma alma tão leve nos braços.

De qualquer forma, esse meu avô nunca fugira da Nefasta. Mas não posso afirmar que ele não tivesse medo dela.

O outro avô sempre fora mais forte de saúde. E sua estatura também fazia qualquer um duvidar de suas fraquezas. Essas eram ocultas. Fraquezas no caráter. Tinha, vez ou outra, suas moléstias físicas, mas essas não eram tão funestas a ponto de evocar a Temida. Acho que esse avô, no fundo, por não ter ainda tanta intimidade com a Morte (a morte era sempre a dos outros), tinha um baita medo dela. E, por isso, mesmo com um pequeno resfriado, ele expunha sua doença mas reiterava que ia ficar bem, numa tentativa de arregar a Morte, se ela estivesse rondando, com sua convicção bem viva.

Morreu assim, de repente. Um mal-estar banal, um desconforto intestinal e, puf. Mortinho. Sofremos muito. Sofremos o desaviso da morte. Ela veio sorrateira. Ele sim tinha sombra grande o suficiente pra esconder a Implacável. O dia nascera lúgubre. Um domingo nem quente nem frio. De cores cinzas e amareladas. Um céu nem sol nem chuva. E um silêncio dominical de uma cidade pequena do interior. Era o dia de glória da única funerária de lá.

O outro avô, que estava certo de morrer precocemente, viu o sogro da filha rendido à Imperatriz. Viu as pessoas chorando num velório que não era o dele. Por fim, colecionou muitos mortos durante a vida, e talvez fosse contando seus mortos é que ele contasse seus anos. Sua vida sempre por um triz.

O dia, enfim, de sua morte oficial, chegara como o dia de um casamento. Havia dias que ele estava estirado na cama do hospital, com as mãozinhas repousadas sobre o ventre, ensaiando para o funeral. Ele esperava a Noiva.

Foram dias infinitos. Diversos procedimentos médicos. Diversas medicações. Era pressão que caia, pressão que subia. O coração desenhava gráficos bizarros no frequencímetro, como se para fazer auê. A Morte, em relação a esse avô, era vaidosa, queria ser percebida. Fazia alarde.

Durante esses dias, seus órgãos foram parando. Um por um. E aí vinham as próteses, os aparelhos- para respirar, para evacuar, para pulsar… Só o cérebro ficou lá, nos trinques. E talvez isso seja o que dói mais. Ter consciência da Morte te levando as partes, aos poucos. Estar de olhinhos bem abertos pra ver a cara que ela tem.

O luto da família, iniciado tantos anos antes, agonizava nesse vem-não-vem da Morte. E, no fim, todos sabiam que o melhor era aceitar que ele partisse, mas ninguém estava certo de se sentir preparado pra isso.

Contudo, num domingo nublado, nas horas preguiçosas logo depois do meio dia, quando meu avô costumava esperar seu golinho de café,  ela se decidiu e o levou para o altar.

Mesmo depois de tanto luto, havia ainda muita chuva em nossos olhos. E nos invadia aquela questão: “será que ele viveu bem, mesmo vivendo sempre pertinho da morte?”. A espera crônica pela morte é vida? E a vida é sempre isso, afinal- a espera da Morte, ainda que às vezes não pensamos nela?

Não sei, não sei. Mas fato é que a gente só se da conta da vida quando a morte está por perto. Os olhos humanos precisam de certos contrastes.

E, falando em olhos, eu realmente acho que os meus avôs viram a Morte de perspectivas diferentes. Um com susto, o outro com resignação. Talvez. Mas acho que ambos tiveram medo. “Pra onde ela vai me levar?”, eles devem ter se perguntado. E, nessas horas, a gente deve duvidar da própria fé, até os ateus, que, por fim, acabam por desejar a existência de um deus. Ainda se a Morte vier com voz sedutora, com carícias afáveis… Ela vai, certamente, causar um calafrio, como essas mulheres atraentes e seguras de si mesmo. Eles sentiram medo. Eu não tenho dúvidas. Mas impossível dizer qual dos medos foi maior- o de ser beijado pela primeira vez por Ela ou o de reencontrar a Velha-Conhecida.

Reflexão

O que eu menos preciso, especialmente hoje, é receber os parabéns por ser mulher. Realmente, ter uma genitália fêmea gera uma série de dificuldades para que nós, seres humanos do sexo feminino, expressemos nossas potencialidades enquanto humanas. A sociedade espera que ser homem e ser mulher siga protocolarmente uma série de tarefas e, dessa forma, de fato é tarefa árdua ser mulher (não que ser homem, segundo o que a sociedade machista espera, seja fácil, longe disso). É árduo ser subordinada aos padrões de beleza; é árduo ser mulher quando isso requer o reconhecimento dos homens; é árduo conciliar casamento, gestação e carreira; é árduo ser forte sem deixar de ser sensível; é árduo ter um corpo de beleza considerada divina e, ao mesmo tempo, ser condenada aos infernos e suas atrocidades quando sua roupa é julgada muito curta; é árduo falar com propriedade e, mesmo assim, ser ouvida com a soberba de um mundo que aprendeu a olhar pra mulher como um ser ingênuo; é árduo andar com passos firmes e respirar sem medo os ares noturnos, pois que a noite representa perigo certo às mulheres; é árduo menstruar, sentir cólicas e variações no humor; é árduo ter que zelar por nossa “dignidade” quando ela é representada por um hímen não-rompido; é árduo fazer escolhas quando elas não condizem com as conformidades. Não é fácil ser mulher. E às vezes isso me faz encarar meu próprio reflexo no espelho, meu reflexo do rosto ainda sem maquiagem, nu de tudo o que se espera dele, e dizer a mim mesma: “calma”. No reflexo eu busco um conforto que fora de mim dificilmente tenho, por ser mulher. No meu reflexo eu busco o apoio que, fora de mim, não encontro, por ser mulher. É claro que meu reflexo reflete parte da grande pressão que recai sobre mim, por ser mulher (as roupas, o corte de cabelo, os escrúpulos estéticos…), mas meu reflexo também mostra a minha dimensão reflexiva, a imagem que eu quero ver, a imagem do que sou além dos artifícios, a imagem da minha humanidade. Por isso, a única coisa que meu reflexo nunca me diz é: “parabéns por ser mulher, parabéns por não ter enlouquecido com todos esses paradigmas que recaem sobre você”.

Nós, mulheres não precisamos ouvir “parabéns” por o sermos. Precisamos que os outros (e todas as mulheres também se incluem em “os outros”, embora seja substantivo masculino) reflitam sobre a condição da mulher na atual conjuntura. E acho que é pra isso que existe o feminismo, é pra isso que existe o 8 de março. A militância parte da reflexão e a mudança parte da militância. É por isso que o feminismo é válido. É por isso que o 8 de março também o é.

Hoje não precisamos ser parabenizadas. Hoje não precisamos ganhar presentes, tornando essa data mais uma vil data comercial, que deturpa o propósito genuíno com o qual foi instituída. Hoje, especialmente, as mulheres devem simbolizar o tema de uma reflexão, mas, sem perder de vista que essa reflexão não encerra as mulheres, mas a forma como a sociedade segrega os gêneros, a forma como a sociedade liquefaz as relações positivas e harmônicas entre as pessoas, a forma como um pensamento isento de alteridade faz com que criemos apatia, asco e preconceitos para com o outro, a forma como os paradigmas impedem o desenvolvimento de uma humanidade digna desse nome.

Homens, não julguem injusta a existência de um Dia Internacional das Mulheres. Homens héteros, não pensem que datas como essa e como o Dia do Orgulho LGBT sejam datas para fazer barulho na rua à toa. Entre gêneros não há competição, senão dentro de nossas próprias cabeças. Homens, não pensem que parabenizar as mulheres nesse dia cumpra sua função enquanto cidadãos, enquanto responsáveis pela construção da sociedade. Antes dos parabéns, que venha a reflexão, para não haver mal entendido e para que os parabéns tenham sentido. Mulheres, não esperem receber rosas e presentes hoje. Nós também temos que refletir sobre nossa condição. Temos que ser ativas da construção da sociedade que queremos. Lembro-me de que, na quarta série, quando recebia “parabéns” em alguma atividade, achava que não precisava me esforçar mais, que já esgotara o êxito. Os “parabéns” me vinham como uma satisfação. Mas se satisfazer não é estancar? Receber os parabéns pelo Dia Internacional da Mulher é, para muit@s, uma ilusão de que as coisas estão mudando, quando de fato não estão, e de que a existência desse dia seja, por si só, satisfatória. Que os “parabéns” não deixem a busca pela igualdade satisfeita. Que esses parabéns sejam apenas incentivos. Que o 8 de março, enfim, não desperte o ódio e as oposições entre gêneros, mas que reafirme a humanidade que, como a justiça, deve ser imparcial.

The endless river

A mãe entra no quarto e vê a filha chorando quietinha, calma, como se a água só vertesse naturalmente dos olhos. Pergunta, angustiada, o porquê das lágrimas. A filha então responde em um sussurro, que é pra não atrapalhar o orvalhar dos olhos:

“Dentro de mim corre um rio, mãezinha. À noite suas águas me querem sair, porque aqui dentro as águas se turbulentam e, você sabe, a água só quer escoar mansinha, mansinha. Por isso que me saem dos olhos, pra correr o meu rosto se amaciando na minha pele. A água dentro de mim é como um rio que fica em baixo na terra. Não consegue enxergar por onde vai, então busca o externo e brota, brota da terra, pra correr amaciando-se na superfície, pra poder respirar um pouco. E é por isso que eu choro, mãe, pra poder fluir melhor dentro de mim mesma.”

Intertempos

Quando olhei para o céu, naquele instante pareceu-me que, repentinamente, as nuvens estancaram, como se o tempo parasse e, com suas mãos congeladas, segurasse o vento hermeticamente, impedindo-o de arrebanhar as nuvens.

Querendo uma segunda opinião, interrompi Ariadna de terminar o desfecho de um episódio de sua epopeia pessoal e sussurrei, como uma criança que quer a certeza vinda de um adulto:

-Ari, olha pro céu- as nuvens e o vento pararam?

-Ahn? Você faz cada pergunta… Não, tudo está girando junto com a terra. Você sabe… Aquela força de Coriollis, né? Respondeu-me um pouco impaciente por eu não estar atenta ao que ela falava anteriormente.

E quando voltei meus olhos pra cima, enquanto Ariadna voltava a falar, as nuvens também voltavam a se mover. Às vezes eu pensava que era a ciência que colocava movimento nas coisas, que era a ciência que incomodava as pedras. Tudo estava quieto e a ciência fuçava, inventava de pôr as coisas em entropia. Ou entropia nas pobres coisas que só queriam ficar em zero absoluto.

Naquele instante em que vi o tempo parar, tenho certeza do que se passou- peguei o tempo em flagrante, distraído. O tempo, coitado, ele já está muito cansado e, quando ninguém está olhando, ele simplesmente para em descanso. Pra compensar, quando as pessoas se atentam ao seu curso, ele corre, para não se atrasar.

A humanidade se perdeu nos paradigmas

Estou cansada da cobrança de ser uma mulher, porque eu não sou mulher como dizem que a mulher tem que ser. Eu não tenho os projetos de vida que dizem que uma mulher deve ter. Eu quero ser a mulher que desejo ser; quero superar as cobranças, pressões e expectativas e desenvolver minha feminilidade nos meus moldes, no meu teor de açúcar, na minha força, no meu corpo e, principalmente, na minha intelectualidade.

Quero matar, emocionalmente, todos os homens dos quais dizem que eu, enquanto mulher, preciso, dos quais sou dependente, dos quais eu devo tirar minhas forças, nos quais devo pôr toda a minha devoção. Quero matar a minha falsa necessidade de precisar de um homem para afirmar minha personalidade, meu ser-mulher. Quero trucidar a falsa ideia de que a mulher é um apêndice do homem, ou de que o homem é a cabeça da mulher, e de que a mulher era uma costela tirada do homem, como a bíblia ousa dizer (duvido que Deus seja tão estúpido quanto as palavras “divinas” dizem). Que ser mulher não signifique um antagonismo a ser homem. E também não quero a visão de complementariedade entre homens e mulheres, mas sim o verdadeiro companheirismo pautado na equidade entre ambos.

Quero usar calça jeans ou saia sem que associem esta ou aquela à feminilidade. Quero que homens possam usar saias, ou melhor, possam querer usar saias, não apenas nas festas do trocado. Quero gostar tanto de rosa quanto de azul e espero que os homens também possam. Quero usar meu cabelo comprido ou curto, dependendo da minha vontade, sem que pensem que eu sou lésbica ou que tenha preferências masculinas. Quero acabar com as classificações- isso é de homem, isso é de mulher. Quero comprar Kinder Ovo sem saber se a “surpresa” que vem dentro “é de menino ou de menina”. Quero ir ao shopping e fazer compras sem que me julguem estar num ambiente adequado, num ambiente que mulher gosta. Quero dizer vai se foder com a liberdade que os homens o dizem e quero me foder com a aceitação que a sociedade aceita que os homens o façam.

Na condição de mais pura liberdade, como da qual todo ser humano deve dispor, quero fazer minhas escolhas e não ser julgada como puta, como pecadora, como moça de família, como sapatão, como fria, como insensível, como doce, como portadora de boa índole, ou como rebelde. Quero que meu clitóris sinta o tanto de prazer que sua sensibilidade me permita. Quero sim fazer sexo quantas vezes eu tiver vontade e com quantas pessoas eu quiser. E, se eu não quiser um filho, que eu use e abuse dos preservativos e me entupa de pílulas. Se eu quiser, quero me casar sem que achem que isso é o mais óbvio e natural acontecimento na vida de uma mulher. Quero, caso venha a me casar, que o casamento não represente renúncias ou submissão, mas sim uma experiência enriquecedora para ambos os casados; que transcenda reciprocamente os egoísmos; que seja fundamentado no respeito mútuo; que não seja estruturado na relação um-é-mais-teimoso-então-o-outro-cede; que não requeira renúncias de sonhos que cada um construiu anteriormente. Quero poder me casar sem ter papel definido enquanto esposa e que, neste caso, declarem no casamento “marido e esposa”, porque pra ser mulher não é preciso se vestir de branco. E, se eu casar, quero sair pra beber com meus amigos sem o meu marido e sem que as pessoas vejam isso como falta de respeito, como algo estranho. Se eu quiser ter filh@s, que ser mãe não me limite a pensar somente n@s minhas/meus filh@s. Ao contrário do que dizem, mãe não é sinônimo de total doação, de negação de si mesma em prol da família. Ser mãe é como ser pai, com a diferença de a mulher ter que carregar e sustentar o feto por 9 meses na barriga e depois ter que amamenta-lo. Mas, ainda assim, mãe e pai têm a mesma função de ajudar @ filh@ a enxergar o mundo e torna-l@ um ser humano com senso de humanidade. Um ser humano justo, íntegro, sensível, solidário.

Eu não quero que meu corpo sempre provoque desejos sexuais nos homens. Não quero conquistar com a carcaça que contém o infinito do que sou, não quero chamar a atenção porque uso um batom vermelho, porque uso calças apertadas ou porque uso uma blusa decotada. Quero cativar pelo que eu sou enquanto humana, quero conquistar por meio da construção que fiz de mim, pela minha intelectualidade, pelo meu caráter. Não quero correr riscos por ter peitos salientes, quadris mais largos e bumbum mais avantajado do que dos homens. Não quero ser estuprada porque uso roupas ditas indecentes. E, se tal fatalidade ocorrer e dela decorrer uma gestação indesejada, quero poder ser livre pra fazer a escolha de abortar, optar por minha dignidade enquanto humana, preconizada legalmente, ao invés de me conformar com uma gestação brutalmente imposta. Além disso, se apesar de todas contracepções eu vir a ficar grávida, quero poder escolher continuar ou não com a gravidez, sem ser excomungada, sem ser mandada pro inferno. E, no caso de eu querer dar à luz a um bebê que não estavam nos planos, que não me julguem irresponsável, desajuizada ou “biscatinha”.

Eu quero, num almoço de domingo com a família, poder ficar um tempão à mesa conversando com as pessoas, com os homens e mulheres da família, sem que eu tenha que me apressar, juntamente com as demais mulheres, a retirar a louça da mesa e lavá-la. Quero que isso não seja delegado naturalmente às mulheres. Quero que seja natural que todos se ajudem. Quero que mulher troque lâmpadas e pneus. Quero que homens lavem a louça e troquem fraldas no banheiro masculino. E isso não implica em os homens deixarem de trocar lâmpadas e pneus e as mulheres deixarem de lavar a louça e trocar fraldas.

Quero poder não querer segurar um bebê no colo, sem que isso seja visto com estranheza. Quero poder aprender corte e costura, quero poder aprender a tocar bateria. Quero poder aprender a dançar balé e poder aprender a jogar futebol. Antes de sair, quero me maquiar e pentear o cabelo, mas, se não estiver com vontade, quero poder não o fazer sem que digam que sou desleixada. Quero que os pais se interessem em ensinar sobre mecânica às suas filhas pequenas, como costumam a fazer somente com seus filhos. Quero que dirigir não seja considerado domínio dos homens, porque isso não é verdade. O fato é que os meninos aprendem a dirigir mais cedo que as meninas, porque seus pais fazem questão, como se dirigir simbolizasse masculinidade. Que as mães ensinem os filhos e filhas a dirigirem também. Quero que meninos possam brincar de casinha e com bonecas e que as meninas possam brincar com carrinhos e a jogar vídeo games. Quero que os meninos não tenham que quebrar os dentes de um colega dando-lhe um soco e que não tenham que beijar meninas para serem ditos homens. E quero que as meninas não tenham que ser românticas, que não tenham que querer um namorado e que não tenham que gostar de fofoca para serem consideradas mulheres.

Quero que o conceito de homem e mulher desapareça. Para se referir às diferenças anatômicas, que se usem macho e fêmea, por que não? Quero que lésbica, sapatão, gay, bicha, homossexual também desapareçam do léxico da sociedade. Quero não ter mais que lidar com esses velhos paradigmas que colocam cada ser humano em uma categoria, alvejando, assim, a própria humanidade em cada um. Quero que a sociedade pense nas pessoas como humanas, não as julgando pelas escolhas que fazem. Quero que a sociedade não cobre mais das pessoas um padrão que nem ela sabe de onde veio. E, importante destacar, a sociedade somos todos nós. Mudá-la começa por mudar a nós mesmos, nossas perspectivas, nossos conceitos, nossos valores. Quando olhamos atentamente as coisas, passamos a enxergar como elas estão. E eu duvido que, enxergando, as pessoas gostam do que veem.

Entropia sem ética da alma

A minha alma, não tendo estado físico, porta-se em físico estado, no corpo, ocupando-lhe, como fluido, todo o seu volume, autentificando-me os interstícios da matéria, controlando meus genes mais do que a própria informação arquivada em meu DNA. Habita o corpo a alma. Mas a alma segue as leis da entropia e agita-se querendo rompê-lo, bagunçar-me a caótica ordem fisiológica.

Meu corpo é ânfora. O recipiente de uma transformação. Meu corpo é um reator. Não apenas da físico-química vital, mas o reator que tem carga de alma. O tempo-espaço que me ocupo é minha detenção hidráulica onde distrato a alma. Contamino-lha com os tantos coliformes da ignorância; subjugo-lha à forma vaidosa que oprime; enforco-a no entremeio de tantas veias dilatadas por minha humana ira; sufoco-a com os ares impuros que inspirei em meio a um vazamento de insultos proferidos pela soberba hipócrita. E, assim, no corpo, a alma agita-se. Não como matéria, mas como avessa à matéria, antimatéria. Doente de moléstias inferiores, pergunta-se como fora ali, no carnáceo cárcere, parar. Não achando respostas, intolerante à maçada corpórea, às obrigações humanas fundadas em desumanidade, à guerra de almas que se percebem corpos e querem, assim, se ferir mutuamente, estendendo suas dores de alma às chagas físicas, de ardência do corpo, intolerante ao amor das almas que se compenetram enquanto corpos buscando nos orgasmos a nostalgia de serem almas, a alma quer evadir-se da carne, ascender de mundo.

Para tanto, quando o corpo, o próprio corpo, rasga a própria pele com as próprias mãos, não é um suicida. Nessas circunstâncias, o corpo foi assassinado. A alma que assim mata. A alma faz o parto de si mesma. E do corpo, não verte apenas o sangue, expande-se a alma.

Babel

Déjeuner du matin

Jacques Prévert 

Il a mis le café / Ele colocou o café
Dans la tasse / Na xícara
Il a mis le lait / Ele colocou o leite
Dans la tasse de café / Na xícara de café
Il a mis le sucre / Ele colocou açúcar
Dans le café au lait / Na no café com leite
Avec la petite cuiller / Com uma pequena colher
Il a tourné  / Ele mexeu
Il a bu le café au lait / Ele bebeu o café com leite
Et il a reposé la tasse / E repousou a xícara
Sans me parler / Sem falar comigo

Il a allumé / Ele acendeu
Une cigarette / Um cigarro
Il a fait des ronds / Ele fez círculos
Avec la fumée / Com a fumaça
Il a mis les cendres / Ele depositou as cinzas
Dans le cendrier / No cinzeiro
Sans me parler / Sem falar comigo
Sans me regarder / Sem me olhar

Il s’est levé / Ele se levantou
Il a mis / Ele colocou
Son chapeau sur sa tête / Um chapéu sobre a cabeça
Il a mis son manteau de pluie / Ele vestiu sua capa de chuva
Parce qu’il pleuvait / Porque chovia
Et il est parti / E partiu
Sous la pluie / Sob a chuva
Sans une parole / Sem uma palavra
Sans me regarder / Sem me olhar

Et moi j’ai pris / E eu segurei
Ma tête dans ma main / Minha cabeça com minha mão
Et j’ai pleuré. / E chorei.

Esse poema de Jacques Prévert é absolutamente simples em sua construção. Não tem palavras muito difíceis, até mesmo para os que estão aprendendo francês há pouco; não aborda um tema extraordinário e, pode-se dizer até que é “meia-boca” se comparado a grandes poemas da língua portuguesa, como os das rimas rebuscadas e hipérbatos de Olavo Bilac, da aura fúnebre de Augusto dos Anjos, do profundo existencialismo e pluralismos de Pessoa… Mas, em sua simplicidade, seus versos expressam fidedignamente a angústia de alguém invisível perante a outrem.

Por que o silêncio do homem? Por que a indiferença?

Não é minha intenção aqui ficar divagando sobre as possíveis interpretações e hipóteses acerca do poema. Pretendo, entretanto, oferecer uma leitura do ponto de vista psicossocial, isto é, tomá-lo como “a parte pelo todo”.

O poema põe em cena uma relação baseada na complementaridade, como se um cônjuge, mais especificamente, a mulher, fosse extremamente dependente, incompleta sem seu companheiro. Daí o sofrimento calado da mulher que, atentamente, observa o homem indiferente e que se corrói por sua frieza. O homem, em contrapartida, e assim a sociedade o quer, é alheio à mulher, não depende dela, a não ser para que ela lhe sirva um café.

A construção social desses estereótipos se dá desde cedo na vida de meninos e meninas. No caso dessas, é mais fácil assumir seu papel estereotipado de mulher- basta que imitem suas mães. Para os meninos a tarefa é mais cruel- é preciso, desde cedo, separar-se da mãe, diferenciar-se dela. As diferenças anatômicas entre homens e mulheres são, para os meninos, desde cedo assombrosas- o dito sexo frágil deve ter comido uma maçã muito importante do éden para ter sido “castrado”. Segundo Freud, a descoberta de que meninas não têm pênis, inconscientemente faz com que os meninos sintam-se superiores a elas.

Essa tendência é reafirmada no contexto em que o homem tem papel privilegiado, por participar ativamente da vida intelectual da sociedade. Ao contrário do que se pensa, o homem, de maneira geral, é mais dominador em uma conversa do que a mulher. Os homens, desde garotos, precisam, por imposição social, se afirmarem machos. Devem se mostrar corajosos, prepotentes, e até por vezes violentos. O homem deve ser poderoso, e isso se manifesta nas conversas. A escolha e domínio do assunto, “estar com a razão”, é uma tendência na fala dos homens. Quando dois deles conversam, por exemplo, inconscientemente se estabelece uma hierarquia- quem domina e quem é “inferior” na conversa (relação de complementaridade, tal qual a que se estabelece entre patrão e empregado, professor e aluno).  Já as mulheres, quando conversam entre si, estabelecem uma conversa horizontal, buscando tratar de assuntos que têm em comum (relação simétrica).

Não apenas a forma que homens e mulheres se relacionam é distinta, mas também o é a função que tem o diálogo. Os homens, de uma maneira geral, utilizam a fala para trocar informações. As mulheres dão outra dimensão para a fala, elas a utilizam como forma de confirmar vínculos. Dessa forma, o silêncio têm significados diferentes para ambos os sexos. A mulher tende a conceber o silêncio como algum erro, alguma falha na relação com seu companheiro. Isso explica, do ponto de vista abordado, o porquê da angústia da mulher do poema perante o silêncio do homem.

A indiferença do homem para com a mulher também é uma consequência social. A mulher, embora tenha conquistado algum espaço no mercado de trabalho e entre os intelectuais, está atrelada ao lar. Aceita-se com naturalidade muito maior que a mulher cozinhe, limpe e lave em uma casa onde todos trabalham fora, por exemplo. Para o homem, a casa é um lugar de descanso, mas não mais importante do que o lugar onde trabalha, pois é aí que o homem se sente à vontade e confiante. É como se o lugar de trabalho fosse o campo de futebol em que o homem joga, se empenha e se concentra. Chegar em casa é descanso, portanto não merece os esforços nem a concentração do homem. Atrelada ao lar, a mulher fica invisível. Para muitos homens, as mulheres não são boas interlocutoras, afinal, no trabalho, seus verdadeiros interlocutores, seus companheiros de jogo são, em grande parte, seus congêneres. Os homens tendem a subestimar a intelectualidade  das mulheres, rechaçando-as como interlocutoras.

Eis o silêncio. Eis então uma relação que extrapola o poema e cotidianamente se repete na sociedade atual, uma relação de dicotomia, na qual se realçam as diferenças entre homens e mulheres de forma a criar abismos entre eles. Ele pensando no jogo, ela posta a escanteio. Nenhum dos dois se entende. Ele pouco fala (com ela) e ela, se fala, é taxada como tagarela. Quem é superior? Nenhum dos dois. Enquanto ela chora, com o rosto entre as mãos, no trabalho ele também esconde o rosto, porque dizem que homem não deve chorar.

Fonte: CASTAÑEDA, Marina. O Machismo Invisível.