Reflexão

O que eu menos preciso, especialmente hoje, é receber os parabéns por ser mulher. Realmente, ter uma genitália fêmea gera uma série de dificuldades para que nós, seres humanos do sexo feminino, expressemos nossas potencialidades enquanto humanas. A sociedade espera que ser homem e ser mulher siga protocolarmente uma série de tarefas e, dessa forma, de fato é tarefa árdua ser mulher (não que ser homem, segundo o que a sociedade machista espera, seja fácil, longe disso). É árduo ser subordinada aos padrões de beleza; é árduo ser mulher quando isso requer o reconhecimento dos homens; é árduo conciliar casamento, gestação e carreira; é árduo ser forte sem deixar de ser sensível; é árduo ter um corpo de beleza considerada divina e, ao mesmo tempo, ser condenada aos infernos e suas atrocidades quando sua roupa é julgada muito curta; é árduo falar com propriedade e, mesmo assim, ser ouvida com a soberba de um mundo que aprendeu a olhar pra mulher como um ser ingênuo; é árduo andar com passos firmes e respirar sem medo os ares noturnos, pois que a noite representa perigo certo às mulheres; é árduo menstruar, sentir cólicas e variações no humor; é árduo ter que zelar por nossa “dignidade” quando ela é representada por um hímen não-rompido; é árduo fazer escolhas quando elas não condizem com as conformidades. Não é fácil ser mulher. E às vezes isso me faz encarar meu próprio reflexo no espelho, meu reflexo do rosto ainda sem maquiagem, nu de tudo o que se espera dele, e dizer a mim mesma: “calma”. No reflexo eu busco um conforto que fora de mim dificilmente tenho, por ser mulher. No meu reflexo eu busco o apoio que, fora de mim, não encontro, por ser mulher. É claro que meu reflexo reflete parte da grande pressão que recai sobre mim, por ser mulher (as roupas, o corte de cabelo, os escrúpulos estéticos…), mas meu reflexo também mostra a minha dimensão reflexiva, a imagem que eu quero ver, a imagem do que sou além dos artifícios, a imagem da minha humanidade. Por isso, a única coisa que meu reflexo nunca me diz é: “parabéns por ser mulher, parabéns por não ter enlouquecido com todos esses paradigmas que recaem sobre você”.

Nós, mulheres não precisamos ouvir “parabéns” por o sermos. Precisamos que os outros (e todas as mulheres também se incluem em “os outros”, embora seja substantivo masculino) reflitam sobre a condição da mulher na atual conjuntura. E acho que é pra isso que existe o feminismo, é pra isso que existe o 8 de março. A militância parte da reflexão e a mudança parte da militância. É por isso que o feminismo é válido. É por isso que o 8 de março também o é.

Hoje não precisamos ser parabenizadas. Hoje não precisamos ganhar presentes, tornando essa data mais uma vil data comercial, que deturpa o propósito genuíno com o qual foi instituída. Hoje, especialmente, as mulheres devem simbolizar o tema de uma reflexão, mas, sem perder de vista que essa reflexão não encerra as mulheres, mas a forma como a sociedade segrega os gêneros, a forma como a sociedade liquefaz as relações positivas e harmônicas entre as pessoas, a forma como um pensamento isento de alteridade faz com que criemos apatia, asco e preconceitos para com o outro, a forma como os paradigmas impedem o desenvolvimento de uma humanidade digna desse nome.

Homens, não julguem injusta a existência de um Dia Internacional das Mulheres. Homens héteros, não pensem que datas como essa e como o Dia do Orgulho LGBT sejam datas para fazer barulho na rua à toa. Entre gêneros não há competição, senão dentro de nossas próprias cabeças. Homens, não pensem que parabenizar as mulheres nesse dia cumpra sua função enquanto cidadãos, enquanto responsáveis pela construção da sociedade. Antes dos parabéns, que venha a reflexão, para não haver mal entendido e para que os parabéns tenham sentido. Mulheres, não esperem receber rosas e presentes hoje. Nós também temos que refletir sobre nossa condição. Temos que ser ativas da construção da sociedade que queremos. Lembro-me de que, na quarta série, quando recebia “parabéns” em alguma atividade, achava que não precisava me esforçar mais, que já esgotara o êxito. Os “parabéns” me vinham como uma satisfação. Mas se satisfazer não é estancar? Receber os parabéns pelo Dia Internacional da Mulher é, para muit@s, uma ilusão de que as coisas estão mudando, quando de fato não estão, e de que a existência desse dia seja, por si só, satisfatória. Que os “parabéns” não deixem a busca pela igualdade satisfeita. Que esses parabéns sejam apenas incentivos. Que o 8 de março, enfim, não desperte o ódio e as oposições entre gêneros, mas que reafirme a humanidade que, como a justiça, deve ser imparcial.

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Fim de rima, fim de sonho

E naquele instante

Soube prontamente

Que o sonho pedante

Quisera alienar a mente,

Distraí-la da realidade,

De modo a incorporar, risonho,

O som da crueldade

Do despertador que a noite ponho

Para me tirar da onírica faculdade.

E assim sonhei que o som estridente

Misturava-se à cena

E, enquanto o trem vinha, sorridente

Eu via uma mulher- é a amada que

Me acena!

O som do despertador

Torna-se o barulho do trem,

Então, nos sonhos, tudo estava bem,

Porque os sonhos servem para isso-

Para impedir que a realidade

Atrapalhe a realização de um

Desejo,

O de dormir mais um pouco.

Conquista atualizada

983 amigos no facebook. 345 curtidas em uma foto que nem estava no perfil. E um monte de comentários idiotas de caras idiotas. Tinha até brincadeirinha com o nome dela, na foto de biquíni. Um tal de Paulinho escrevera: “Sara sarada ❤ 😉 “. Tudo isso me irritava. Ainda mais porque eu era o namorado de Sara. Ok. Já havia 3 anos que tínhamos terminado. Mas, mesmo assim, eu ainda analisava meticulosamente sua página no facebook. A atitude de detetive não era premeditada pelo ciúmes. Ele vinha depois. Eu diria que era apenas uma curiosidade minha saber como andava Sara. Nos trombávamos de vez em quando, é verdade. Trocávamos palavras simpáticas e notícias breves. Mas ela nunca me contava sobre suas aventuras amorosas. Mas essas eu enxergava nos interstícios do facebook- a proximidade de um mesmo cara em várias fotos, a mão agarrada firmemente na cintura de Sara, os comentários dissimulados mas transbordantes de significações…

É claro que depois de Sara tive outras namoradas, casos e acasos. Porém ela fora a primeira, o primeiro amor. De início éramos pura devoção. Eu ainda persisti. Mas ela já estava entediada. E, agora que já vencera as inseguranças, agora que já descobrira o sexo, já podia se interessar pelos caras mais velhos. E foi assim que, depois de alguns meses depois de terminarmos, ela foi se engraçar com um cara do cursinho. Diga-se de passagem, era o quarto ano daquele cara no cursinho. E nem medicina ele prestava. Era indecisão mesmo, ou medo de assumir uma escolha. Começava um curso, mas preferia a comodidade do cursinho, a boa vida que os pais lhe garantiam. O caráter dele não importava às meninas, ele era tolo, mas engraçado. E, claro, era lindão. E fazia academia. Eu ouvia sempre as meninas dizerem que ele era puro sex appeal e que a pegada dele devia ser boa. De qualquer forma, logo Sara se cansou dele também. Ou queria estar solteira quando entrou na faculdade.

Na faculdade ficou com um veterano, na festa dos bixos. Depois, durante o intercursos, beijou um cara da atlética, que cursava engenharia mecânica. Isso quem me contou foi o irmão de um amigo meu, veterano dela. O resto vi pelo face mesmo. Vi que o amigo de turma, o Tom, cara que sempre estava nas fotos, postara um comentário duvidoso em uma foto em que ambos estavam deitados na grama rindo e apontando pro céu. O Tom não durou muito, mas até mereceu mudança no status de relacionamento do facebook, um pouco depois dessa foto. Depois foi o Gui, um cara que já estava fazendo estágio. Ela se amarrava em homens de traje social. E a defesa do tcc desse cara ela fora assistir. Não por interesse, mas pra tirar uma foto com ele arrumadinho e postar no face: “Parabéns, gatíssimo. Mais uma fase vencida. Espero te acompanhar nas próximas conquistas”.

Gui mudou de cidade (o facebook anunciou num “Mudou-se para…”). E então foi a vez do Marquinhos. Estava fazendo mestrado. Pela cara de meninão, deve ter escolhido o mestrado por status e porque não queria sair da universidade tão cedo. Marquinhos também não durou muito. Nem vi tantas fotos nas redes sociais. Acho que ele não demonstrava tanto seu amor por Sara em público. Ela não deve ter gostado da discrição. Depois dele vi umas fotos aí. Festas com a galera. Em uma delas tinha um cara bêbado a abraçando e beijando seu rosto. Ela com uma cara bizarramente bêbada, rindo-se da situação. Juro que sempre que eu olhava a página de Sara sentia um mix de repulsa: nojo, inconformismo, ignorância, piedade, decepção… E também um sentimento de traição. Apesar disso, eu nunca deixava de fuçar na vida de Sara.

Essa semana eu o fiz de novo, pra variar. Dessa vez deve ser um tal de Vini. Porque tinha uma foto dos dois. Ela e o Vini, de terno, em frente a uma tela de projeção onde dava pra ler:

“Aluno: Vinícius Soares de Camargo

Doutorado em Engenharia Elétrica”

O pior era a legenda irônica da foto. Uma baita de uma legenda ambígua (talvez propositalmente ambígua, já que ela adorava publicar suas conquistas): “Mais uma conquista: Vini, doutor”

Uva, uva passa

Era o segundo natal sem titia Devassa. Chamávamo-la assim pois que ela mesmo adotou o “codinome-de-mulher-pantera-fera-raawww”. Era a mais “jovem” dentre as quatro irmãs. Como viu as outras três ganhar rugas primeiro que ela, decidiu-se um dia, jurando diante de um espelho ao seu fiel reflexo ainda sem rugas: “Não quero ficar velha que nem minhas irmãs que, além das rugas, aceitaram serem caretas”. E desde então, tia Devassa iniciou-se na ritualística síndrome de Peter Pan. Malhava muito pra manter o corpo delgado e teso, mas precisou colocar silicone para manter as coisas devidamente no lugar. No rosto, por de baixo da espessa camada de maquiagem, os poros estavam sufocados com bastante creme anti-idade, como se ele fosse capaz de conter o implacável tempo. Mas, no fim das contas, com sua magreza sarada, com seus cabelos extravagantemente loiros, com seus peitos invejáveis, vestida em roupas atrevidas que as irmãs rechaçavam boquiabertas, e com suas rugas contidas, titia Devassa parecia, de fato, bem mais nova do que sua idade requeria. Mesmo tendo 63 anos enquanto eu tinha 30, ela sempre dava um jeito de ir aos bares comigo e no final da noite sempre levava um dos meus amigos pra cama. Ela vinha com aquelas frases virulentas que se tornavam clássicos de nascença e logo ganhava a admiração e simpatia de todos. Depois, “como uma pantera”, ela focava em uma presa e jogava seu charme sensual (que para mim, na condição de sobrinho, era repugnante).

Foi difícil eu ter uma opinião sobre ela. Quando pequeno ela me parecia um pouco assustadora, escandalosa, e, não se contentava em apertar minhas bochechas- dava-me também um tapinha safado na bunda, dizendo: “E aí, garoto, já tá atrás de alguma menininha?”, quando eu só tinha 6 anos de idade. Minhas bochechas ficavam mais rubras de vergonha do que pelo forte apertão que ela me dera e, nessa época, ela estava na minha coleção de pessoas que eu evitava nas reuniões familiares.

Em um natal, contudo, a ideia que tinha de tia Devassa mudara, não sem um subterfúgio material da parte dela. Pois foi que ela me presenteara com um vídeo game! O brinquedo mais descolado e invejável da época. Eu, que era um garoto anônimo na escola, logo comecei a atrair amigos interesseiros (antes sequer sabiam meu nome) que faziam de tudo para serem convidados a desfrutarem do meu Atari 7800. Minha mãe vivia reclamando que eu não saía do vídeo game, mas tenho certeza de que, o que de fato a incomodava, era minha tia ter me dado um presente tão caro e, pior, ter ganhado minha simpatia.

Aos meus 11 anos de idade, com uma maturidade bastante pueril e nem sinais de puberdade, eu descobri o sexo. Não, não transei aos onze anos, mas descobri o sexo em suas vertentes mais assombrosas (assombrosas para mim naquela época). Embora eu tivera tido, nas aulas de ciência, uma introdução sobre as diferenças fisiológicas e anatômicas entre homens e mulheres e uma vaga noção de que o homem colocava alguma coisa na mulher pra ela ter um filho, eu já mais vislumbrara a obviedade- o homem introduz o pênis na vagina. Essas coisas eram sempre dissimuladas pelos eufemismos nos livros de ciência da quarta série- “cópula”, “coito”, e por aí vai… Mas, um dia, quando fui passar a tarde na casa da tia Devassa, estávamos assistindo Star Wars no quarto dela e, enquanto ela preparava pipoca, eu vi sobre seu criado-mudo um vibrador. Com a ingenuidade de um garoto de 11 anos perguntei o que era. Com um ar surpreso e sua voz de deboche, respondeu-me sem comedimentos: “É um pinto de borracha!”. Vendo-me ainda confuso, ergueu os olhos e os fez girar, como se estivesse enfadada, e começou a me explicar iconoclastamente o que era sexo.

Conforme fui crescendo, cultivava certo receio de que minha tia tinha uma queda por mim. Tinha a impressão de que ela era tarada demais, sempre me dando tapinhas na bunda, mesmo eu tendo meus 16 anos. E, aposto que minha mãe também tinha certo receio, porque era ela sempre relutante em me deixar passar tardes com titia Devassa. Mas o fato é que nunca acontecera nada. E aos poucos eu comecei a confiar verdadeiramente em tia Devassa. Ela foi a primeira pessoa a quem eu contei sobre minha primeira transa. Era a única com quem eu conseguia falar abertamente de coisas “constrangedoras”.

Mas sempre permeou uma ambivalência sobre o que eu sentia por tia Devassa. Se por um lado eu a tinha como amiga, como companhia hilária e divertida, por outro me incomodava sua artificialidade. Eu desejava vê-la nua. Não nua como meus amigos desejavam, mas a queria nua daqueles artificialismos- nua daquela silicone, nua de todos os cremes e maquiagem, nua da tinta de cabelo, nua das bijuterias coloridas. Porque eu tinha a impressão de que não a conhecia verdadeiramente e temia que toda a ideia que eu tinha dela fosse apenas uma máscara, um artifício, um fingimento e que, na verdade, bem no cerne, ela queria mesmo é ser como suas irmãs, já senhorinhas gentis e recatadas, que fazem bolo de cenoura aos filhos quando vão visitá-las. E acho que tia Devassa sempre quis ter um filho. Não fosse pelo apreço com seu corpo, teria tido uns cinco. Mas, contentara-se em cuidar de mim, à sua maneira, claro, para não demonstrar afeto maternal piegas.

Faltava uma espontaneidade humana nela. Faltava a aceitação de sua humanidade. E isso começou a me incomodar. Quando minha tia mais velha morreu, eu percebi que a única que poderia afirmar a humanidade de tia Devassa seria a morte. E, que vil dizer, comecei a esperar ansiosamente pela morte de tia Devassa. Era-me insuportável o papel que ela encenava, por mais que fosse divertido vê-la em suas extravagâncias. Eu enxergara, então, que ela também odiava o teatro da sua vida, embora estivesse sempre gozando de divertimento. Mas foi justamente pelo divertimento que tia Devassa se apegara àquele fingimento e agora, pobre titia, não conseguia se libertar. É por isso que eu ansiava sua morte. Só assim ela se libertaria. E aposto que no céu não teria mais que fingir, porque alma não tem forma, só o caráter destilado.

A morte enfim lhe veio aos 74 anos. Idade em que ainda mantinha uma vida ativa (em todos os sentidos). No caixão jazia esticadinha, com pernas, braços e a pele do rosto esticados. Eu sentia alívio por saber que a liberdade da tia Devassa finalmente chegara, mas também sentia uma profunda saudade, desde já, da sua descontração irreverente. Contemplei seu corpo amarelado e frio. Embora o rosto ainda estivesse enrijecido com botox, vi que seus braços estavam com aparência de uva passa. E é essa a imagem que me vem quando me lembro do velório da tia Devassa- ela, no caixão, transfigurando-se de humana para uva passa, como se fosse esse o desnudamento que sempre desejei ver.

Depois da morte da minha velha tia, substitui a minha implicância com seus artificialismos pela implicância com minha prima Carmen. Ela era impertinente demais e sempre escolhia os piores namorados do mundo. Tipo o Ricardo, um cara que ficava lambendo sua orelha mesmo estando todos da família reunidos à mesa para uma refeição. Dessa vez, no segundo natal sem titia Devassa, era o Jonatas, um cara que, além de inconveniente, chegava a falar coisas abusivamente ofensivas que deixavam todos perplexos. E o que mais me irritava é que ninguém da minha família exigia o devido respeito, e o rapaz continuava a dizer suas besteiras.

Eu que nunca tivera a iniciativa de protestar-me contra o que quer que seja, enchia a boca com panetone para me distrair das asneiras proferidas pelo “Johnny”. Simultaneamente, enquanto eu fiquei desolado por ver uma uva passa cair da minha fatia de panetone, o intruso se atreveu a perguntar, em tom irônico, olhando uma foto de tia Devassa na parede: “Mas quem é essa coisa?”. Levantei-me insultado da cadeira, e, com a boca ainda cheia,  bradei: “Essa uva passa era parte da fatia”, quando, na verdade queria dizer: “Tia Devassa era parte da família!”.

Retesável ironia da relatividade

I.

O refugo de uns

É o alimento de outros.

A desgraça do pobre

É o sustento do rico.

II.

A  copa das árvores são raízes voltadas ao céu,

E as raízes das árvores são galhos que escavam a terra.

As aves se exibem por seu voo

E os insetos voam recônditos.

III.

O rio almeja ser mar

E o mar, salgado, arrepende-se de não ser mais rio.

A criança anseia por ser gente grande

Mas só na velhice entende a grandeza infante.

IV.

O sábio estuda pra deixar de ser ignorante,

Mas desaprende a ser alheio.

E em meio às irresoluções da vida

Esqueceu-se de como é ser simplesmente feliz.

The endless river

A mãe entra no quarto e vê a filha chorando quietinha, calma, como se a água só vertesse naturalmente dos olhos. Pergunta, angustiada, o porquê das lágrimas. A filha então responde em um sussurro, que é pra não atrapalhar o orvalhar dos olhos:

“Dentro de mim corre um rio, mãezinha. À noite suas águas me querem sair, porque aqui dentro as águas se turbulentam e, você sabe, a água só quer escoar mansinha, mansinha. Por isso que me saem dos olhos, pra correr o meu rosto se amaciando na minha pele. A água dentro de mim é como um rio que fica em baixo na terra. Não consegue enxergar por onde vai, então busca o externo e brota, brota da terra, pra correr amaciando-se na superfície, pra poder respirar um pouco. E é por isso que eu choro, mãe, pra poder fluir melhor dentro de mim mesma.”